Por que o Slayer ficou rápido? A resposta é mais complicada do que o Exodus

Por que o Slayer ficou rápido? A resposta é mais complicada do que o Exodus
Slayer no palco: a velocidade que nasceu na Bay Area. Foto: Narcótico / CC BY 3.0

Em 1984, o Slayer ainda usava maquiagem e tinha um pé fincado na cena de Los Angeles. Pouco depois, virou a banda mais veloz e cortante do thrash americano. Quem viveu aquele período de microfone na mão, como eu vivi nos anos 80, sabe que essas viradas de timbre e andamento raramente caem do céu. Por isso a pergunta volta sempre nas mesas de bar entre quem curte metal: por que o Slayer ficou rápido daquele jeito, quase de um disco para o outro?

A resposta mais interessante não veio de um crítico. Veio de dentro da cena, da boca de David Ellefson, baixista que esteve ali quando Kerry King passou alguns meses tocando ao vivo no Megadeth. E o caminho que ele descreve não aponta para Los Angeles. Aponta para a Bay Area.

Este texto defende uma tese mais incômoda do que parece à primeira vista. A velocidade característica do Slayer costuma ser tratada como dom espontâneo de quatro caras do sul da Califórnia, mas ela tem rastros, e um deles leva à Bay Area, depois que Kerry King viu o Exodus tocar de perto. Não foi a única força em jogo, como veremos. Foi uma entre várias que convergiram quase ao mesmo tempo. É um relato de testemunha somado a outras pistas, não um fato fechado, e vou tratar tudo exatamente assim, separando o que é documentado do que é versão pessoal.

Por que o Slayer ficou rápido começa na Bay Area

Para entender a história, é preciso entender o território. A Bay Area, a região da baía de São Francisco, foi um dos berços do thrash metal americano nos primeiros anos da década de 80. Ali o som nasceu mais cru, mais rápido e mais subterrâneo do que o glam que dominava o Sunset Strip em Los Angeles.

O Exodus estava no centro disso. A banda se formou ainda em 1979, em Richmond, na Califórnia, e foi peça de fundação daquele circuito de clubes pequenos e suados. Pela formação do Exodus passou um guitarrista chamado Kirk Hammett, que depois saiu para entrar no Metallica em 1983. O próprio Metallica, embora tenha começado em Los Angeles, só fechou sua primeira formação clássica depois de se mudar para a região da baía, em 1983, quando Cliff Burton entrou no baixo.

Quem cresceu trocando fita cassete de demo, como muita gente da minha geração fez, entende o peso disso. A Bay Area não era um detalhe geográfico. Era um caldo onde a intensidade subia a cada show. E o Exodus, com seu álbum de estreia Bonded by Blood, de 1985, virou referência de velocidade para uma geração inteira de bandas que vinham logo atrás.

Por que o Slayer ficou rápido: o relato de Ellefson

Aqui entra o depoimento que sustenta o ângulo. Em 1984, antes do Megadeth firmar sua identidade, Dave Mustaine e David Ellefson precisavam de um segundo guitarrista para os primeiros shows ao vivo. Chamaram Kerry King, do Slayer, que aceitou tocar por alguns meses sem abandonar a própria banda.

Foram poucas apresentações, parte delas justamente na Bay Area. E foi nesse intervalo, segundo Ellefson, que King conheceu o pessoal do Exodus e viu a banda tocar de perto. O baterista Tom Hunting virou assunto. Ellefson lembra King dizendo, em entrevista traduzida pelo Mundo Metal, que Tom Hunting era “o cara”.

O trecho central é direto. “Depois que Kerry tocou com a gente, ele conheceu o pessoal do Exodus, viu o Exodus tocar, aprendeu como o Tom Hunting tocava, voltou para casa e fez o Dave Lombardo tocar como o Tom Hunting”, disse Ellefson, conforme registrado pela Loudwire. “Por isso o Slayer ficou tão rápido.” Para ele, aquelas poucas datas que levaram King à baía abriram os olhos do guitarrista para o que o thrash de verdade poderia ser.

O que muda na bateria quando o thrash acelera de verdade

Como músico, é aqui que a conversa fica concreta. Velocidade no metal não é só tocar mais ligeiro. É um conjunto de decisões na bateria que reorganiza o andamento inteiro da banda.

O speed metal anterior, herdeiro da NWOBHM, já corria. Mas o salto do thrash da Bay Area veio principalmente do kick e da forma de conduzir o tempo. A diferença está em como o bumbo sustenta colcheias e semicolcheias contínuas sob os riffs em palm mute, enquanto a caixa marca o backbeat com agressividade quase punk. Quando isso entra em sincronia perfeita com a mão direita do guitarrista, o conjunto soa duas vezes mais veloz do que o metrônomo real indicaria.

Tom Hunting tinha exatamente esse domínio de pulso. Dave Lombardo, no Slayer, levou a ideia ainda mais longe, transformando o bumbo duplo e os blast beats embrionários em assinatura. Não por acaso, discos como Reign in Blood, de 1986, soam como uma corrida sem freio. Para quem ajustava amplificador no palco naquela época, a lição era clara: a velocidade percebida nasce do encaixe rítmico, não do volume. É o mesmo princípio que separa um timbre que respira de um que só embola na mistura quando o ganho passa do ponto.

Não foi só King: Lombardo e Hoglan no mesmo pulso

Aqui cabe um contrapeso importante. O próprio Lombardo, em entrevista ao Stereogum em 2023, credita a aceleração a uma decisão deliberada dele com Jeff Hanneman. “Eu dizia ao Hanneman: tem que ser pesado, tem que ser mais rápido. Foi intencional”. Vale a mesma ressalva que cabe ao relato de Ellefson: é um depoimento dado quase quatro décadas depois, sujeito à reconstrução da memória, mas vindo de quem segurava as baquetas, tem peso. Além disso, há outro personagem dentro do círculo do Slayer: Gene Hoglan, que trabalhou para a banda nos primeiros anos e, segundo ele mesmo, deu dicas de bumbo duplo a Lombardo durante a gravação de Haunting the Chapel, em 1984. Ou seja: mesmo que King tenha trazido uma referência da baía, a velocidade do Slayer teve mais de uma mão moldando o pulso.

Onde termina o fato e começa a versão

Preciso ser honesto com você, leitor que conhece o assunto. Boa parte dessa história é relato de uma testemunha, não verdade gravada em pedra.

O que é fato verificável: a geografia da Bay Area, as datas de formação do Exodus e do Slayer, a saída de Kirk Hammett do Exodus para o Metallica e a passagem de Kerry King pelo Megadeth em 1984. Tudo isso está documentado e ninguém contesta.

O que é versão: a ligação causal direta entre King ver Tom Hunting tocar e o Slayer acelerar. Isso é leitura pessoal de Ellefson, declarada por ele mesmo como opinião. O próprio King nunca confirmou a história nesses termos. Tratar o relato como prova fechada seria desonesto. Tratá-lo como pista valiosa, vinda de quem estava lá, é justo. E é assim que o ângulo se sustenta, ao lado da discussão maior sobre os pioneiros do thrash que ficaram fora do clube dos quatro. Vale lembrar ainda que Lombardo já buscava mais velocidade por conta própria desde 1983, antes mesmo dos shows de King com o Megadeth, e que outros nomes, como Gene Hoglan, circulavam pelo Slayer naquele período. A versão de Ellefson não é falsa, mas é uma peça de um quebra-cabeça com várias mãos, não a explicação única.

Por que o Slayer ficou rápido: várias mãos no mesmo pulso

No fim, a resposta mais honesta é também a menos cômoda para uma manchete. O Slayer não ficou rápido por causa de uma única revelação. Ficou rápido porque várias forças empurraram na mesma direção, quase ao mesmo tempo.

Havia a vontade declarada do próprio Lombardo, que dizia a Hanneman que tinha de ser mais rápido, intencionalmente. Havia Gene Hoglan, dentro do círculo da banda, passando dicas de bumbo duplo na época de Haunting the Chapel. E havia, sim, a baía, a atmosfera do Exodus, o pulso de Tom Hunting, a referência que King teria levado de volta, segundo Ellefson.

Se Ellefson estiver certo, ao menos em parte, a baía entra na conta daquilo que tornou o Slayer inconfundível, não como única causa, mas como mais uma voz numa conversa que envolveu o próprio Lombardo, Hoglan e a cena inteira. Não é pouca coisa para uma banda que entrou para a história ao lado do Master of Puppets e dos grandes nomes do gênero. É a prova de que o thrash, mesmo nos seus titãs, foi sempre uma conversa entre cidades, palcos e bateristas que se observavam de perto. A Bay Area entra nessa conversa. Mas não fala sozinha.

Perguntas frequentes sobre a velocidade do Slayer e o Exodus

Por que o Slayer ficou rápido a partir de 1984?

Segundo o baixista David Ellefson, Kerry King viu o Exodus tocar na Bay Area enquanto fazia shows com o Megadeth. A partir dali, teria levado a referência de velocidade para o Slayer. No entanto, trata-se de um relato pessoal, não de um fato confirmado pela própria banda.

O Exodus deveria estar no Big Four?

Muitos defendem que sim. Ellefson, inclusive, afirma que abrir o grupo obrigaria a falar em Big Six, com Exodus pela Costa Oeste e Overkill pela Leste. Ainda assim, o rótulo histórico permaneceu com Metallica, Slayer, Megadeth e Anthrax.

Kerry King tocou mesmo no Megadeth?

Sim. Inicialmente, em 1984, King fez alguns shows ao vivo como segundo guitarrista do Megadeth, porém sem deixar o Slayer. Além disso, foi justamente nesse período, segundo Ellefson, que ele teve contato próximo com a cena da Bay Area. Consequentemente, essa vivência teria moldado a virada de velocidade da banda.

A história contada por Ellefson é confirmada?

Não totalmente. A geografia, as datas e os músicos envolvidos são fatos documentados. Por outro lado, a relação direta de causa e efeito é interpretação de Ellefson, que ele mesmo apresenta como opinião pessoal.

A velocidade do Slayer veio só da Bay Area?

Não. Embora o relato de Ellefson aponte para a influência do Exodus, o próprio Dave Lombardo afirma que buscava mais velocidade de forma intencional desde 1983. O baterista Gene Hoglan, que trabalhava para o Slayer, também deu dicas de bumbo duplo a Lombardo durante a gravação de Haunting the Chapel. A velocidade da banda, portanto, teve várias origens.

Paulo Stelzer

Guitarrista das bandas Heineken e Domini nos anos 80 e 90, ex-apresentador do "Rock da Tarde" na Rádio Mania 87,9 FM e técnico em Eletrotécnica. Paulo Stelzer criou o Musicante para falar de rock e produção musical com a autoridade de quem viveu o gênero de dentro, nos palcos, nos estúdios e nos microfones.

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