Por que o rock de Brasília nos anos 80 nasceu numa única colina

Por que o rock de Brasília nos anos 80 nasceu numa única colina
A Turma da Colina, o polo de Brasília que gerou o rock brasileiro dos anos 80.

Quando eu ouvia Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude pela primeira vez no começo dos anos 80, era impossível não perceber que aquele som vinha de um lugar diferente. Não era o rock carioca, não era o paulistano. Era outro vocabulário, outra urgência. Só muito depois fui entender por quê: o rock de Brasília nos anos 80 foi produzido por uma geração que cresceu junta num mesmo pedaço de cidade, bebendo das mesmas influências, e que explodiu em direções diferentes num intervalo de dois anos.

Esse pedaço de cidade tinha nome: Colina, a área residencial da Universidade de Brasília. E a história que começa ali, com um grupo de adolescentes filhos de diplomatas e professores universitários ouvindo Sex Pistols e Ramones em discos trazidos de fora do país, é a pré-história de três das bandas mais importantes do rock brasileiro.

O que este texto defende é o seguinte: o rock de Brasília nos anos 80 não nasceu de um único racha, mas de um único polo de ebulição. O Aborto Elétrico gerou diretamente a Legião Urbana e o Capital Inicial. A Plebe Rude surgiu do mesmo ambiente, pela mesma geração, mas por um caminho próprio. Entender essa distinção é entender por que o rock que saiu de Brasília foi tão diverso sendo tão coeso.

O polo que gerou o rock de Brasília nos anos 80

Esses jovens tiveram contato com o punk rock inglês e americano, bandas como Sex Pistols e Ramones, num ambiente que seria chamado de Turma da Colina, considerado um dos primeiros movimentos culturais organizados de Brasília. O que tornava aquela turma incomum era a combinação improvável de acesso cultural e politização. Filhos de diplomatas traziam discos de Londres. Filhos de professores da UnB traziam consciência política. O resultado foi um punk que tinha ao mesmo tempo raiva de adolescente e argumento de adulto.

Em 1978, Renato Russo conheceu Fê Lemos numa festa e os dois se tornaram amigos pelo improvável gosto em comum: o punk rock, movimento que já fazia a cabeça dos jovens na Inglaterra, mas era praticamente desconhecido no Brasil. Dessa amizade nasceu o Aborto Elétrico, banda que estreou em janeiro de 1980 e que, nos dois anos seguintes, produziu um repertório que alimentaria não uma, mas duas bandas.

Ao mesmo tempo, no Lago Norte, um garoto de 9 anos chegado dos Estados Unidos sem falar português se mudaria para a mesma quadra onde andava a galera do Aborto Elétrico. Quando se mudou para o Lago Norte, Philippe Seabra conheceu André, com quem fundaria a Plebe Rude, e era ali que andava a galera do Aborto Elétrico. Em torno dos 13 anos, teve o contato com o punk através desta turma. Inspirado por Ico Ouro Preto, da Aborto Elétrico, começou a aprender violão. A Plebe Rude, portanto, não saiu do Aborto Elétrico. Saiu do mesmo solo.

A separação que redefiniu o rock de Brasília nos anos 80

As brigas entre Fê Lemos e Renato Russo aconteciam sempre. Mas o episódio que precipitou o fim do Aborto Elétrico foi concreto. Em dezembro de 1981, Renato decidiu participar de uma oração convocada por Yoko Ono em homenagem a John Lennon, morto dias antes. Chegou atrasado ao show, errou uma música. O baterista atirou uma baqueta nele, acertando a cabeça. Renato foi em direção a Fê e decretou o fim da banda. Os irmãos Lemos foram até a casa dele e pediram para continuar. Ele topou, mas a confiança havia rachado de vez. Em março de 1982, era decretado o fim do Aborto Elétrico.

O que veio depois separou duas visões que nunca foram exatamente a mesma. Renato Russo chegou a cantar sozinho como o “Trovador Solitário” por um tempo, até criar, meses depois, a Legião Urbana juntamente com o baterista Marcelo Bonfá e o guitarrista Dado Villa-Lobos. Os irmãos Lemos, por sua vez, convidaram Dinho Ouro Preto para formar o Capital Inicial. Além disso, as composições do Aborto Elétrico foram divididas entre as duas novas bandas. Músicas como “Que País é Esse” já existiam antes da Legião existir. O racha não criou o repertório: só definiu quem o levaria adiante.

Vale dizer: Dinho Ouro Preto e Dado Villa-Lobos já eram amigos desde os 11 anos, filhos de diplomatas que se conheciam na mesma Brasília de elite intelectual. O pai de Dinho casou-se com a mãe de Dado quando ambos tinham cerca de 17 e 18 anos, transformando uma amizade antiga em parentesco. A conexão entre Capital Inicial e Legião Urbana, portanto, era familiar muito antes de ser musical.

Três identidades saídas do mesmo caldo

O mais revelador no que saiu da Colina é que cada projeto encontrou uma linguagem distinta para a mesma urgência.

A Legião Urbana canalizou a escrita poética de Renato Russo num projeto onde a letra valia tanto quanto o arranjo. O rock encontrou a new wave, a balada e o folk no mesmo disco. “Faroeste Caboclo”, “Eduardo e Mônica” e “Que País é Esse” vinham de um músico que enxergava o rock como literatura de massa. Dessa forma, a sonoridade foi crescendo, ficando mais orquestral com o tempo, e a mensagem ganhou amplitude nacional.

O Capital Inicial, por outro lado, abraçou o pop rock urbano com apelo mais direto. Os irmãos Lemos herdaram parte do repertório do Aborto Elétrico e Dinho Ouro Preto trouxe uma voz que equilibrava peso e acessibilidade. “Fátima” e “Música Urbana” são exemplos de como o grupo transformou a experiência da cidade em canção sem precisar da grandiosidade poética de Renato.

A Plebe Rude, em contrapartida, manteve a espinha mais punk político do movimento. A banda foi formada em 1981 por Philippe Seabra, Gutje Woorthmann, André Mueller e Jander Bilaphra, unidos pela admiração ao Clash, chegando a fazer covers da banda sob o nome Clash City Rockers. O comprometimento político era explícito e sem concessões.

O dia em que Brasília bateu de frente com o Brasil

Quando Plebe Rude e Legião Urbana tocaram juntas em Patos de Minas em 5 de setembro de 1982, primeiro show da Legião, que abriu para a Plebe, as duas bandas acabaram detidas pela polícia militar após as apresentações. A Plebe Rude por “Vote em Branco”, a Legião por “Música Urbana 2”. Houve tapa na cara de Renato Russo. O episódio só terminou quando um superior mandou todos pegarem o primeiro ônibus de volta para Brasília. Era o rock de Brasília confrontando o Brasil fora da bolha da capital, e o Brasil reagiu como o Brasil sabia reagir.

Por que Brasília tornou esse rock possível

Não é coincidência que esse fenômeno aconteceu ali. Brasília é uma cidade criada por decreto, com uma identidade cultural que precisava ser inventada. Não havia tradição musical local para contestar nem para se filiar. Isso liberou os jovens da Colina de qualquer obrigação com o passado.

Além disso, o ambiente político da ditadura em fase de abertura criava urgência criativa. Letras como “Que País é Esse” e “Vote em Branco” não seriam possíveis sem o contexto de uma capital federal onde a política era presença física e cotidiana.

Consequentemente, o rock produzido ali carregava uma consciência que o rock das grandes metrópoles culturais não tinha na mesma proporção, e é por isso que Brasília se tornou a capital do rock brasileiro.

Eu tocava nos anos 80 e lembro com precisão da sensação de ouvir aquelas bandas na rádio pela primeira vez. Havia algo naquele som que era diferente do rock americano que eu estudava na guitarra: era pessoal, era local, e ao mesmo tempo universal. Para quem acompanhou o rock brasileiro nos anos 80 de perto, é impossível não perceber que Brasília funcionou como laboratório. O que saiu dali influenciou diretamente o que bandas de São Paulo e Rio de Janeiro passariam a fazer nos anos seguintes.

O rock brasileiro fervilhava também em São Paulo, o Titãs e o Cabeça Dinossauro provariam isso poucos anos depois, mas o laboratório foi Brasília.

O legado do polo que virou movimento

Quando várias bandas saem do mesmo núcleo e cada uma encontra um caminho próprio, o resultado não é fragmentação: é multiplicação — e esse é um dos marcos da história cultural do rock. O Aborto Elétrico plantou em solo brasiliense um conjunto de referências, conflitos e composições que, ao se dispersar, fertilizou o rock dos anos 80 no Brasil inteiro.

Renato Russo morreu em 1996. A Legião Urbana não voltou. O Capital Inicial e a Plebe Rude seguiram seus caminhos com formações e altos e baixos ao longo das décadas. Ainda assim, o racha de 1982 e a efervescência que o rodeou ainda reverberam. São a prova de que as melhores histórias do rock raramente são sobre harmonia. São, portanto, sobre o que nasce quando algo quebra, e sobre o que floresce quando um grupo de jovens num mesmo pedaço de cidade decide que rock é mais urgente do que qualquer outra coisa.

Entender a história do rock dos anos 80 no Brasil passa, obrigatoriamente, por entender o que havia naquela colina em Brasília.

Perguntas frequentes sobre o rock de Brasília nos anos 80

Qual a relação entre o Aborto Elétrico, a Legião Urbana, o Capital Inicial e a Plebe Rude?

O Aborto Elétrico deu origem direta à Legião Urbana e ao Capital Inicial. A Plebe Rude surgiu do mesmo ambiente, a Turma da Colina, mas por caminho próprio. Raiz comum, genealogia diferente.

Por que o Aborto Elétrico se desfez?

A dissolução resultou de desentendimentos crescentes entre Renato Russo e Fê Lemos. O episódio final ocorreu em dezembro de 1981, quando Renato se atrasou para um show por conta da morte de John Lennon e errou uma música. Ainda assim, a banda fez um último show de despedida em março de 1982 antes de encerrar definitivamente.

O que Brasília tinha de especial para gerar esse movimento?

A cidade combinava jovens com acesso cultural diferenciado, discos importados e um contexto político de abertura da ditadura que tornava as letras políticas inevitáveis. Consequentemente, o rock produzido ali carregava uma consciência crítica que diferenciava essas bandas do que se fazia em outros centros do Brasil.

As composições do Aborto Elétrico foram aproveitadas pelas bandas seguintes?

Sim. Com o fim do grupo, o repertório foi dividido entre Legião Urbana e Capital Inicial. Por isso, músicas como “Que País é Esse” já existiam como composição antes mesmo da formação da Legião. Dessa forma, o legado do Aborto Elétrico sobreviveu através das bandas que o sucederam.

Renato Russo e Dinho Ouro Preto tinham alguma ligação pessoal?

Sim. Conviveram na Turma da Colina e Dinho pediu a Renato que completasse a letra de “Música Urbana”. A curiosidade maior é que Dinho e Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião, viraram meio-irmãos quando o pai de Dinho casou com a mãe de Dado — sendo que os dois já eram amigos desde os 11 anos.

Paulo Stelzer

Guitarrista das bandas Heineken e Domini nos anos 80 e 90, ex-apresentador do "Rock da Tarde" na Rádio Mania 87,9 FM e técnico em Eletrotécnica. Paulo Stelzer criou o Musicante para falar de rock e produção musical com a autoridade de quem viveu o gênero de dentro, nos palcos, nos estúdios e nos microfones.

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