Raimundos: o deboche que fez o forró com punk funcionar

Em 1994 eu ainda fechava as tardes na Mania 87,9, no Rock da Tarde, quando um disco de capa tosca parou na minha bancada. O nome da banda parecia piada interna. Botei a agulha mesmo assim. O que saiu do monitor era o forró com punk dos Raimundos no sentido mais cru da expressão: triângulo de feira batendo em cima de guitarra estourada, baixo na cara e um sotaque paraibano cuspindo letra a mil por hora.
Meu primeiro instinto foi rir. O segundo foi rebobinar e ouvir de novo. Embaixo da palhaçada tinha banda de verdade, gente que sabia exatamente o barulho que queria fazer. Quase trinta anos depois, no entanto, ainda encontro quem trate aquele disco como molecagem de garoto que pegou amplificador emprestado. É aí que eu levanto a mão.
Minha defesa é simples. O deboche dos Raimundos nunca foi falta de maturidade nem acidente de adolescente. O forró com punk dos Raimundos era recurso deliberado, com endereço e com história: herdeiro direto da malícia do forró e o oposto exato do punk panfletário que aquela turma tinha acabado de largar. A piada era a estratégia. E foi ela, mais do que o peso, que abriu a porta do rádio e da televisão.
O forró com punk dos Raimundos nasceu de uma escolha consciente
Antes de os Raimundos existirem, o Digão tocava no Filhos de Mengele. Era hardcore radical, parte daquela cena nervosa que brotou na colina onde nasceu o rock de Brasília. Punk panfletário, daquele que sobe no palco para dar lição de moral. Só que o Digão queria outra coisa.
Em entrevista, ele contou que o desejo de cantar engraçado não cabia naquele time sério. Por isso ele e o Rodolfo levaram a ideia adiante por conta própria. A primeira música em que forró e punk se encaixaram foi “Riacho da Pedreira”. Bateu de primeira. A partir dali, eles entenderam que dava para grudar as duas pontas.
Repare que nada disso é acaso. O próprio nome da banda já era trocadilho de propósito: Raimundo, um dos nomes mais comuns do Nordeste, colado deliberadamente na homenagem aos Ramones, o marco zero do punk. Quem cria um trocadilho desses antes de gravar a primeira fita sabe muito bem o que está fazendo. Por isso, o forrocore começou como decisão de projeto, não como brincadeira que deu certo por sorte. O forró com punk dos Raimundos, afinal, já nasceu adulto.
Zenilton e a malícia que deu lastro ao deboche dos Raimundos
O escracho não caiu do céu. O Rodolfo, de família paraibana, cresceu ouvindo forró de verdade. E não o forró romântico das rádios. Ele mamou em Zenilton, sanfoneiro pernambucano famoso pelos forrós de duplo sentido, recheados de malícia e safadeza.
Aí mora a linhagem. As primeiras composições da banda eram literalmente versões punk de forrós que já existiam. Ou seja: o time pegou a piada suja que já rolava na sanfona do Nordeste e plugou na tomada. Além disso, o duplo sentido, o palavrão e a história de putaria contada com graça vinham de uma tradição popular antiga, não de uma vontade aleatória de chocar.
Como músico, eu acho isso mais esperto do que parece. Chocar por chocar cansa rápido. A malícia, em contrapartida, tem timing, tem entrelinha, tem rima que faz o sujeito rir e corar ao mesmo tempo. Os Raimundos beberam dessa fonte e a vestiram de distorção. O resultado tinha cara de bagunça, mas guardava a estrutura cômica de quem aprendeu com os mestres do forró. Deboche, no fim das contas, também é técnica.
1994: o Nordeste levado a sério e o forró com punk levado na piada
Aqui entra o contraste que mais me fascina nessa história. No mesmo 1994, do outro lado do país, o Chico Science & Nação Zumbi lançou “Da Lama ao Caos”. Era a mesma jogada de fundo, pegar a música do Nordeste e enfiar dentro do rock, só que com o sinal trocado.
O Chico misturava maracatu, rock, funk e rap, além disso, as letras dele falavam de miséria, desigualdade e violência no Recife, no registro do manguebeat. Era, portanto, o Nordeste levado a sério, com crítica social e poesia. Você pode ouvir esse outro lado da moeda no acervo da Nação Zumbi, a banda que seguiu adiante depois da morte do Chico, em 1997.
Os dois projetos bebiam da mesma raiz antropofágica que a Tropicália já tinha aberto: engolir o popular e cuspir rock. No entanto, a intenção era oposta. O Chico apontava o dedo para a ferida social. Os Raimundos apontavam para a própria braguilha e davam risada. Não estou falando de quem vendeu mais, e sim de tom. Inclusive, esse mesmo caldo regional contaminou até o metal, como se vê no que o Sepultura fez no Roots, disco que homenageou o manguebeat de cara. Para situar essas duas pontas dos anos 90, a leitura da Rolling Stone Brasil ajuda bastante. Em 1994, portanto, o Brasil cruzou raiz nordestina com peso por dois caminhos. Um chorava. O outro ria.
Por que o humor dos Raimundos furou o rádio e a MTV
Agora a parte que eu defendo com cuidado, porque é leitura de quem viveu o rádio, não é planilha fechada. “Selim” foi a faixa que furou as emissoras. “Nêga Jurema” virou o primeiro clipe e chegou a disputar a escolha da audiência da MTV para representar o Brasil lá fora, e perdeu para “Territory”, do Sepultura. Mais adiante, o álbum ao vivo da banda na MTV emplacou platina dupla.
Ninguém consegue provar, com documento na mão, que foi a piada que vendeu esses discos. Eu, no entanto, ouvi pedido de ouvinte suficiente para arriscar a aposta: o humor foi o passaporte. Faixa pesada e suja, sozinha, dificilmente entrava na grade do rádio comercial dos anos 90. Com graça, refrão grudento e aquele deboche, o forró com punk dos Raimundos entrava.
Teve também a mão certa na produção. A banda gravou pela Banguela, selo que os Titãs montaram com o produtor Carlos Eduardo Miranda. E o Miranda, que entendia de estúdio, fez questão de não lustrar aquele som. Manteve a crueza no lugar de transformar em pop limpinho. Aliás, para entender o peso daquela gente de Brasília no rock nacional, vale ver como os próprios Titãs morderam o Brasil com o Cabeça Dinossauro. O humor abria a porta. A produção crua garantia que, ao entrar, ainda fosse rock de verdade.
O deboche que ninguém levou a sério e que funcionou
Volto àquela tarde na bancada, com a agulha no disco e a vontade de rir. Hoje, porém, a diferença é que eu sei do que estava rindo. A palhaçada era a embalagem. No entanto, dentro dela vinha decisão de projeto, banda afiada e uma linhagem que ia da sanfona maliciosa de Zenilton até a guitarra estourada no estúdio.
O forró com punk dos Raimundos não foi sorte de moleque nem grito de adolescente sem rumo. Foi escolha, foi herança e foi cálculo de quem queria furar a parede do rádio sem perder a identidade. Por isso, da próxima vez que alguém tratar aquilo como molecagem, lembre de uma coisa simples: molecagem não inventa um gênero novo nem chega à MTV. Deboche com método chega. E chegou. Tanto que a banda nunca sumiu de vez, hoje com o Digão nos vocais, e a discografia segue lá, no site oficial dos Raimundos, para quem quiser revisitar.
Perguntas frequentes sobre o forró com punk dos Raimundos
Forrocore é o apelido da mistura de forró com hardcore que os Raimundos popularizaram. Em termos práticos, é guitarra pesada e batida de punk dividindo a mesma música com triângulo, baião e sotaque nordestino. Por isso o nome pegou: descreve bem esse encontro improvável.
A ideia partiu do Rodolfo Abrantes e do Digão, ainda no fim dos anos 1980. O Digão vinha de uma banda de punk panfletário e queria justamente fazer algo com humor. Dessa forma, a dupla começou a transformar forrós em punk, e “Riacho da Pedreira” foi a primeira a dar certo.
Não. O Rodolfo deixou a banda em 2001 para seguir um caminho religioso e a carreira gospel. Desde então, o Digão assumiu os vocais, e os Raimundos seguiram em atividade. Ainda assim, a fase com o Rodolfo continua sendo a mais lembrada do grupo.
Os dois surgiram no mesmo momento, em 1994, misturando música do Nordeste com rock. No entanto, o tom era oposto: o Chico Science levava a crítica social a sério, enquanto os Raimundos apostavam no deboche. Vale lembrar que o Chico morreu em 1997, num acidente de carro.
O nome é um trocadilho proposital. Por um lado, homenageia os Ramones, ídolos da banda. Por outro, brinca com Raimundo, um dos nomes mais comuns do Nordeste brasileiro. Inclusive, foi essa pegada regional que ajudou a fixar a identidade do grupo.






