Mer de Noms: quem compôs o disco do A Perfect Circle

Mer de Noms: quem compôs o disco do A Perfect Circle
A Perfect Circle, a banda por trás do Mer de Noms.

Quem tocou guitarra nos anos 90 conhece o ritual: ouvir um disco com o encarte aberto, procurando quem fez cada coisa. Com o Mer de Noms, esse ritual costuma terminar errado. O disco de estreia do A Perfect Circle entra na conversa como “aquele do cantor do Tool”, e a conversa acaba ali. Por isso o nome de Billy Howerdel aparece tão pouco, quando aparece.

Ainda assim, o encarte conta outra história. As guitarras que soam de longe, a mixagem e o baixo que segura as canções passam pela mão de um homem que veio dos bastidores de grandes turnês. Além disso, ele já carregava parte dessas músicas havia mais de dez anos quando Maynard James Keenan chegou para cantá-las.

Este texto defende uma tese direta: o Mer de Noms é um disco de Howerdel, que compôs, produziu e tocou boa parte dele, com Maynard na voz. Não é um disco do Tool com outro nome. Dessa forma, os créditos, a cronologia e as palavras do próprio cantor sustentam a leitura que o texto propõe.

O Mer de Noms começou nos demos de Howerdel, antes de Maynard

Billy Howerdel foi técnico de guitarra de Nine Inch Nails, Smashing Pumpkins, Fishbone e Tool. Ele conheceu Maynard em 1992, quando o Tool abriu shows para o Fishbone, e os dois viraram amigos. No entanto, o trabalho de bastidor nunca esgotou o que Howerdel tinha a dizer. Por isso, ele guardava músicas próprias, e algumas vinham de longe.

A Wikipédia, apoiada no livro Guitar World Presents Nu-Metal, registra que ele já trabalhava em “The Hollow” e “Breña” em 1988. Ou seja, o material de 1988 antecede o lançamento em mais de dez anos. Além disso, a Guitar.com conta que os demos bebiam em Siouxsie and the Banshees, The Cure e Ozzy Osbourne. Dessa forma, a lista foge do universo do Tool e mistura pós-punk, gótico e metal clássico.

Por outro lado, a semente do disco já estava no chão antes de Maynard aparecer.

Howerdel produziu, mixou e tocou boa parte do Mer de Noms

São doze faixas e 44 minutos e 25 segundos, e os créditos do encarte não deixam dúvida sobre quem fez o quê. Howerdel assina a produção, a mixagem e a engenharia de som. Alan Moulder dividiu a mixagem com ele, e Frank Gryner cuidou da engenharia de bateria. Além disso, Eddy Schreyer fez a masterização. Por isso a Premier Guitar o apresenta como produtor e engenheiro da estreia platina do A Perfect Circle.

Na execução, a conta pesa ainda mais. Howerdel toca guitarra em onze das doze faixas e baixo em nove, além de piano em duas e teclados em uma. Quem já brigou para encaixar baixo e guitarra numa mix sabe o que isso exige. Ao mesmo tempo, Paz Lenchantin traz violino e baixo, e Troy Van Leeuwen assina as guitarras solo no fim de duas músicas. Por outro lado, Maynard canta em todas e toca gord, uma espécie de kalimba, em “Over”.

Num vídeo de aula, Howerdel mostra à Premier Guitar que “Judith” usa afinação padrão. O peso, portanto, não depende de afinação rebaixada. Quem já tentou gravar guitarra pesada sem embolar entende o tamanho desse trabalho de mesa.

Quem acumula produção, mixagem e baixo numa estreia não trata o projeto como bico.

Maynard ouviu os demos e entrou, mas Howerdel queria uma vocalista

Em 1995, Maynard ofereceu a Howerdel um quarto na casa dele, em North Hollywood. Howerdel procurava lugar para morar, então aceitou e aproveitou para mostrar os demos ao anfitrião. No entanto, a reação foi direta: Maynard disse que conseguia ouvir a própria voz naquelas músicas.

Ainda assim, o plano original era outro. Howerdel pensava em uma vocalista e só aceitou Maynard depois de concluir que o cantor encaixava. Dessa forma, o vocalista chegou a uma banda que já existia em fitas e partituras. Ao mesmo tempo, as letras vieram de Maynard, e a maioria delas homenageia gente que ele conhecia.

Os títulos mostram isso: “Judith”, “Rose”, “Thomas”, “Magdalena”, “Orestes”. Já “Renholdër” esconde “Re:D.Lohner” de trás para frente e homenageia Danny Lohner, guitarrista e engenheiro, que não sabia que a música falava dele. Inclusive o nome do disco, Mer de Noms, quer dizer “mar de nomes” em francês.

O primeiro show veio em agosto de 1999, em Los Angeles, e o Coachella, em outubro do mesmo ano, deu visibilidade maior. Portanto, quando a banda entrou no estúdio, já tinha repertório, formação e palco.

Maynard encontrou uma banda com os trilhos já assentados.

Tim Alexander gravou uma faixa, e Josh Freese tocou o resto

A formação inicial tinha Tim Alexander, do Primus, na bateria. Ele saiu logo depois dos primeiros shows e do contrato, já na entrada do estúdio. Sua única contribuição de estúdio aparece na versão de álbum de “The Hollow”, a faixa de abertura. Ou seja, quem ouve o disco do começo ao fim escuta Alexander por menos de três minutos.

Em contrapartida, Josh Freese assumiu as baquetas da segunda à décima primeira faixa e tocou percussão em “Renholdër”. Ele cobre dez das doze faixas, e Alexander cobre uma. Ele já havia trabalhado com Howerdel nas sessões do Chinese Democracy, do Guns N’ Roses. Consequentemente, a parceria entre os dois vinha de antes do A Perfect Circle.

Já a faixa final, “Over”, aparece sem bateria nos créditos. O arco do disco, portanto, passa por dois bateristas e termina sem nenhum.

Na prática, a bateria do Mer de Noms tem a assinatura de Josh Freese.

O que o Tool tem a ver com o Mer de Noms, e o que não tem

O vínculo existe e ninguém precisa negá-lo. Howerdel foi técnico de guitarra do Tool na época do Ænima, e assim se aproximou de Maynard. Por outro lado, o próprio cantor traçou uma linha entre as duas bandas. Em entrevista ao New York Times em 2000, segundo a Guitar.com, ele descreveu o Tool como um resultado masculino, ligado ao lado esquerdo do cérebro, e o A Perfect Circle como um resultado feminino, ligado ao direito.

Inclusive os críticos da época perceberam a diferença. A Entertainment Weekly elogiou o disco por manter a influência artística de Maynard sem soar tão sombrio quanto o Tool. A Exclaim! o chamou de rock relativamente direto, pelos padrões do Tool. A NME falou numa obra de beleza mórbida. Em contrapartida, a Rolling Stone descreveu a banda como um sonho desesperado do que o rock já foi. Ainda assim, a Guitar.com lamenta que o álbum carregue o rótulo de irmão caçula do Tool.

Além disso, a gravadora reforça a leitura. A banda conversava com a Volcano, selo do Tool, e acabou na Virgin. Segundo Maynard, a Virgin entendia que o projeto devia ter peso igual ao do Tool, sem virar um projeto menor.

O rótulo de projeto paralelo nunca coube nos planos de quem escolheu a gravadora.

O Mer de Noms é o disco de Howerdel com a voz de Maynard

Voltando ao encarte, a resposta para “quem fez isso” ficou clara. Howerdel compôs a base, produziu, mixou e tocou o grosso. Maynard criou as melodias vocais, Freese bateu e Lenchantin trouxe o violino.

Dessa forma, os números contam a mesma história. Em maio de 2000, o disco estreou em quarto lugar na Billboard 200, vendeu mais de 188 mil cópias na primeira semana e ficou 51 semanas seguidas nas paradas. A RIAA certificou o álbum como platina em 31 de outubro de 2000. Foi a maior estreia de um primeiro disco de banda de rock até então. A Stereogum, por sua vez, o descreve como um disco conciso e focado, numa época de CDs inchados.

Ao mesmo tempo, a estrada ajudou. A turnê com o Nine Inch Nails começou em abril, antes do lançamento. Em agosto, a banda dividiu o festival Summersault, no Canadá, com Foo Fighters, Smashing Pumpkins e Our Lady Peace, e depois saiu em turnê própria.

Portanto, o rótulo de side-project descreve mal o que aconteceu em 1999 e 2000. Aconteceu a estreia de uma banda com autor definido, e o disco se sustenta sem o nome do Tool no cartaz. O nome que mais aparece nos créditos é o de Billy Howerdel.

Perguntas frequentes sobre Mer de Noms

Quem compôs o Mer de Noms?

Howerdel e Maynard assinam todas as faixas. Howerdel trouxe a base musical, que vinha dos demos, e Maynard criou as melodias vocais. Portanto, os dois dividem a autoria, mas o ponto de partida é do guitarrista.

Quem produziu o Mer de Noms?

Howerdel produziu o disco e também mixou e fez a engenharia de som. Alan Moulder participou da mixagem. Além disso, Frank Gryner cuidou da engenharia de bateria.

Quem tocou bateria no Mer de Noms?

Josh Freese tocou da segunda à décima primeira faixa. Tim Alexander gravou apenas a bateria de “The Hollow”. Por isso, a presença do baterista do Primus no disco é breve.

O Mer de Noms é um disco do Tool?

Não. Maynard canta nas duas bandas, mas o A Perfect Circle nasceu dos demos de Howerdel e escolheu outra gravadora. Em contrapartida, o próprio cantor descreveu as duas bandas como opostas em temperamento.

Quanto o Mer de Noms vendeu na estreia?

O disco vendeu mais de 188 mil cópias na primeira semana e entrou em quarto lugar na Billboard 200. Além disso, a RIAA o certificou como platina em 31 de outubro de 2000. Por isso, a banda saiu em turnê própria pela América do Norte ainda em 2000.

Paulo Stelzer

Guitarrista das bandas Heineken e Domini nos anos 80 e 90, ex-apresentador do "Rock da Tarde" na Rádio Mania 87,9 FM e técnico em Eletrotécnica. Paulo Stelzer criou o Musicante para falar de rock e produção musical com a autoridade de quem viveu o gênero de dentro, nos palcos, nos estúdios e nos microfones.

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