Formação original do Black Sabbath: o peso não era só Iommi

Toda banda de garagem passa por aquele momento em que o baixista não sabe o que tocar e resolve seguir a mão do guitarrista. Em geral, aliás, isso denuncia amadorismo. Na formação original do Black Sabbath, no entanto, esse improviso virou a fundação de um gênero. Geezer Butler olhava para os dedos de Tony Iommi e tocava a mesma nota, no mesmo tempo. Ao mesmo tempo, Bill Ward tocava bateria pensando em Gene Krupa, e Ozzy Osbourne cantava por cima com a voz de quem tinha largado um emprego no matadouro.
Passei boa parte da vida com uma guitarra no ombro e um microfone de rádio na frente, e sempre me incomodou o jeito como essa história costuma aparecer. Afinal, o acidente de Iommi, as dedeiras de plástico e a afinação baixa são fatos importantes. Ainda assim, essa narrativa transforma o trabalho de quatro pessoas em obra de um homem só.
O que defendo aqui é simples de dizer e trabalhoso de provar: o peso do Black Sabbath nasceu de um arranjo. O baixo dobrava o riff, a bateria de formação jazzística seguia a letra, a guitarra passava por um equipamento muito específico e a banda registrou tudo praticamente ao vivo. Consequentemente, se você tirar uma dessas peças, o som muda de natureza. Por isso, vale olhar cada uma de perto, com o que os próprios músicos disseram.
Quem era a formação original do Black Sabbath
A formação original do Black Sabbath tinha Ozzy Osbourne na voz, Tony Iommi na guitarra, Geezer Butler no baixo e Bill Ward na bateria. Os quatro vinham de Birmingham, cidade industrial do centro da Inglaterra, e começaram em 1968 como uma banda de blues chamada Earth. Iommi e Ward tocavam juntos no Mythology. Geezer e Ozzy, por sua vez, dividiam o Rare Breed, e ali Geezer tocava guitarra, não baixo.
A troca de nome veio em 1969. A partir dali, a banda endureceu o blues até ele virar outra coisa. Essa formação gravou os discos que fundaram o gênero ao longo dos anos 70 e se desfez em 1979, quando Ozzy deixou a banda. Depois disso, os quatro voltaram a se reunir em momentos pontuais, e o Rock and Roll Hall of Fame os recebeu em 2006.
A despedida definitiva aconteceu em 5 de julho de 2025, em Birmingham, no show Back to the Beginning. Além disso, foi a primeira vez desde 2005 que os quatro dividiram um palco. Dezessete dias depois, Ozzy morreu, aos 76 anos. Portanto, quando falamos da formação original do Black Sabbath, falamos de uma história encerrada, com começo, meio e fim.
Por outro lado, o Sabbath não estava sozinho naquele fim de década. Outras bandas também empurravam o rock para o peso, e já comparei algumas delas quando falei das quatro forças do metal clássico. Em contrapartida, nenhuma delas soava como aqueles quatro de Birmingham. E a razão disso, na minha leitura, começa no baixo.
Geezer Butler: o baixo que dobrava o riff
Na formação original do Black Sabbath, o baixista nunca tinha tocado baixo antes. Iommi deixou claro que não queria outro guitarrista na banda, e por isso Geezer mudou de instrumento. Além disso, ele mesmo admite que não tinha dinheiro para comprar um baixo de verdade. Em entrevista à Guitar World, contou que afinou para baixo as cordas de uma Telecaster, e que elas ficavam “balançando para todo lado”.
No entanto, a frase mais reveladora vem logo depois. Geezer disse que ficava olhando para Tony Iommi e tocando a nota fundamental do acorde que o guitarrista estivesse fazendo naquele momento. Em outras palavras, o baixista aprendeu o instrumento dentro da banda, grudado no riff.
Em 2013, ele explicou à revista Mojo o efeito disso. Naquela época, segundo Geezer, o baixista deveria fazer frases melódicas, mas ele não sabia, porque vinha da guitarra. Dessa forma, tudo o que fazia era seguir o riff de Tony. E completou: “Isso deixou o som mais pesado.”
Por isso, qualquer técnico de mixagem entende o que aconteceu ali. Guitarra e baixo tocando a mesma linha somam energia na mesma região de frequência, e o riff ganha corpo que nenhum amplificador sozinho entrega. Inclusive, esse é o mesmo raciocínio que discuti ao tratar de baixo e guitarra na mix: quando os dois instrumentos trabalham juntos, o peso vem da soma, não do volume.
Além disso, Geezer escreveu a maior parte das letras da era Ozzy, com temas de religião, ficção científica e horror. Ou seja, o sujeito que dobrava o riff também dava as palavras que Ozzy cantava. O baixo deixou de ser acompanhamento e virou metade do riff.
Bill Ward e o jazz escondido no som do Black Sabbath
Bill Ward cresceu em Birmingham nos anos 50 ouvindo Count Basie e Benny Goodman, em discos que os soldados americanos deixaram na Inglaterra depois da guerra. Segundo a reportagem da Rolling Stone, aos 10 anos ele já tocava a parte de surdo de Gene Krupa em “Sing, Sing, Sing”. Ward resumiu a própria formação assim: tudo o que já tocou, de algum jeito, desceu de Gene Krupa.
Esse swing aparece, inclusive, no disco de estreia. Ward afirma que toca jazz do começo ao fim na faixa “Black Sabbath”, justamente a que abre o disco. O próprio Ozzy, na autobiografia, citou a introdução swingada de Ward em “Wicked World” como exemplo das influências de jazz da banda. Por outro lado, o cantor também tinha raízes ali, já que admirava Jimmy Rushing, voz da orquestra de Count Basie.
O detalhe mais importante, porém, está na relação com a voz. Em depoimento ao programa Classic Albums, Ward lembrou o momento em que Ozzy cantou “What is this that stands before me?”. Naquele instante, segundo ele, tudo mudou de sensação, e ele passou a tocar bateria para as palavras.
Dessa forma, isso muda a leitura do disco inteiro. Um baterista de rock pesado costuma marcar o riff. Ward, em contrapartida, respondia à letra, como um baterista de big band responde ao solista. Consequentemente, a música respira entre os golpes, e o peso ganha espaço para cair. Sem esse swing, o riff de Iommi soaria apenas lento. Com ele, porém, soa ameaçador, e essa é a contribuição que a formação original do Black Sabbath quase nunca recebe.
O equipamento de Tony Iommi no primeiro disco do Black Sabbath
No disco de estreia, Iommi usou principalmente uma Gibson SG Special com captadores P-90, com uma Fender Stratocaster como reserva. Ainda assim, os pesquisadores discordam sobre qual SG exatamente entrou na gravação. O amplificador era um Laney LA100 BL, de um canal só, com quatro válvulas EL34. Iommi explicou a escolha sem romantismo: a Laney era de Birmingham e ofereceu equipamento quando ninguém mais oferecia.
O ingrediente decisivo, no entanto, era um Rangemaster modificado. O pedal original da Dallas Arbiter reforçava os agudos com um único transistor de germânio. Um músico da banda anterior de Iommi trocou o valor de um capacitor, e o reforço passou a pegar a faixa inteira. Como técnico em eletrotécnica, aliás, acho essa a parte mais bonita da história. No circuito original, o capacitor de entrada pequeno barra os graves. Por isso, quando o valor muda, os graves passam, e o amplificador satura com o corpo todo da guitarra. Iommi usou esse pedal até 1982.
Some a isso as cordas de banjo e as dedeiras que ele mesmo fez com frasco de detergente, que deixavam o toque mais leve e menos doloroso. O resultado é um peso que não depende de ganho exagerado, ao contrário do que muita gente tenta hoje, como já mostrei ao falar do excesso de ganho.
Ao mesmo tempo, há um mito a corrigir sobre a formação original do Black Sabbath. A afinação um tom e meio abaixo, que muita gente cita como origem do metal, não está no primeiro disco. Ela só aparece em 1971, em três faixas de Master of Reality: “Children of the Grave”, “Lord of This World” e “Into the Void”. Geezer, aliás, baixou a afinação junto para acompanhar Iommi. O peso de 1970, portanto, saiu da afinação padrão.
Como o primeiro disco do Black Sabbath saiu em um dia
A banda gravou o disco de estreia em cerca de 12 horas, no Regent Sound, em Londres, com produção de Rodger Bain e Tom Allom como engenheiro. As fontes divergem sobre a data: há registros de 16 de outubro e de 10 e 17 de novembro de 1969. Por isso, prefiro não cravar o dia.
Iommi, por sua vez, descreveu a sessão sem cerimônia: a banda entrou no estúdio, tocou o repertório do show e acabou. As sobreposições se limitaram aos efeitos sonoros da faixa de abertura, como a chuva e o sino, e aos solos dobrados em duas músicas. Todo o resto é a banda tocando ao vivo no estúdio, olhando uns para os outros.
Quem já gravou banda inteira numa sala só conhece bem, inclusive, o efeito disso. O som de um instrumento vaza para o microfone do outro, e esse vazamento cola a banda num bloco único. Nenhuma edição separa o baixo do riff ou a bateria da voz. Dessa forma, o disco registra exatamente a química que eu descrevi nas seções anteriores, sem conserto nem maquiagem.
Além disso, a faixa-título mostra isso melhor que qualquer outra. Ela se apoia quase inteira no trítono, tocado lento, com Geezer colado na guitarra e Ward respondendo à voz de Ozzy. O disco chegou às lojas numa sexta-feira, 13 de fevereiro de 1970. Aliás, o estúdio também pode decidir o destino de um disco, como mostra o acidente do Led Zeppelin IV. No caso da formação original do Black Sabbath, em contrapartida, o estúdio só precisou apertar o botão de gravar.
O peso do Black Sabbath era um arranjo de quatro pessoas
Voltemos à banda de garagem do começo. O baixista que segue a mão do guitarrista, em quase todos os casos, está só se escondendo. Geezer fez a mesma coisa e acabou dobrando o peso do riff. Ward, que poderia apenas marcar o tempo, tocou para as palavras de Ozzy. Iommi, por sua vez, tirou do pedal modificado um peso que ainda não dependia de afinação baixa.
Ainda assim, nada disso diminui Iommi. Os riffs são dele, e o acidente que ele superou pesa na história. No entanto, o som que a formação original do Black Sabbath levou para o disco só existiu porque quatro músicos tocaram juntos, na mesma sala, em volta do mesmo riff. O metal herdou o riff e a afinação. O que ficou para trás, em boa parte, foi o encaixe entre os quatro.
Perguntas frequentes sobre a formação original do Black Sabbath
Ozzy Osbourne cantava, Tony Iommi tocava guitarra, Geezer Butler tocava baixo e Bill Ward tocava bateria. Além disso, os quatro começaram em 1968, em Birmingham, com o nome Earth.
Não. Na verdade, ele tocava guitarra no Rare Breed e só mudou de instrumento porque Iommi não queria outro guitarrista. Por isso, no começo, ele apenas seguia a nota fundamental dos riffs.
Sim. Afinal, ele cresceu ouvindo big bands e cita Gene Krupa como a base de tudo o que tocou. Inclusive, afirma que toca jazz do começo ao fim na faixa “Black Sabbath”.
Não. A afinação um tom e meio abaixo só aparece em Master of Reality, de 1971, em três faixas. Portanto, o peso da estreia saiu da afinação padrão e do equipamento.
Cerca de 12 horas, praticamente ao vivo no estúdio. No entanto, as fontes divergem sobre a data exata das sessões, entre outubro e novembro de 1969.






