Álbuns que dividiram fãs: quando a briga era com a gravadora

Todo fã de rock guarda um disco que nunca perdoou. Ele chegou à loja com um som que ninguém tinha pedido, e a reação veio na hora: a banda se vendeu, perdeu o rumo, traiu quem estava lá desde o começo. A lista de álbuns que dividiram fãs é longa, e quase todo mundo sabe os nomes de cor. No entanto, pouca gente pergunta quem estava na sala quando a decisão saiu.
Quem passou anos atrás de um microfone de rádio aprende cedo que disco não chega sozinho. Ele chega com single escolhido, plano de divulgação e, inclusive, uma gravadora com opinião sobre tudo. Por isso, a pergunta sobre quem mudou o som nem sempre tem a resposta que o fã imagina.
Este texto defende uma tese simples. Vários álbuns que dividiram fãs registram, na verdade, uma briga entre a banda e a gravadora. Ainda assim, o fã culpou a banda. Neil Young, Judas Priest, Rush e Ira! mostram quatro versões diferentes desse conflito. Além disso, o Metallica entra aqui como contraprova, porque nem toda virada tem uma gravadora por trás.
Álbuns que dividiram fãs começam no contrato: Neil Young contra a Geffen
Em 1982, Neil Young deixou a Reprise e assinou com a gravadora nova de David Geffen. O primeiro disco do contrato, Trans, trocou o violão por vocoder, sintetizador e voz robótica. Consequentemente, quem esperava outro Harvest ficou sem chão.
Por isso, a Geffen pediu rock and roll. Young entregou Everybody’s Rockin’, em julho de 1983: um disco curto de rockabilly que ele gravou com uma banda inventada, os Shocking Pinks. Anos depois, ele contou que a gravadora reclamava que ele não soava como Neil Young. Portanto, o disco era a resposta literal ao pedido.
A partir dali, o troco veio no tribunal. Em 1º de dezembro de 1983, a Geffen processou o próprio artista em US$ 3,3 milhões. A ação acusava Young de gravar discos “não representativos” e “não característicos” da própria obra. Em outras palavras, a gravadora levou Neil Young à Justiça por não parecer Neil Young.
Young contra-atacou com um pedido de US$ 21 milhões e alegou que o contrato garantia liberdade artística total. Consequentemente, a ação da Geffen virou constrangimento. As partes fecharam acordo, e David Geffen pediu desculpas pessoalmente ao músico. Ainda assim, Young gravou mais discos para o selo antes de voltar à Reprise, em 1988, com This Note’s for You. Quem já leu sobre o que Neil Young desconfiava da indústria da Califórnia sabe que esse atrito não nasceu ali.
Para quem acompanhou os álbuns que dividiram fãs naquela década, ficou a imagem de um artista errático. No processo, ficou o registro de uma briga de contrato.
Twin Turbos: o disco duplo do Judas Priest que a Columbia partiu ao meio
Em 1985, o Judas Priest vinha de Defenders of the Faith e entrou no Compass Point, nas Bahamas, com um plano ambicioso. A banda queria lançar um álbum duplo chamado Twin Turbos: uma metade mais melódica e comercial, outra mais pesada. No entanto, a Columbia vetou o formato.
Dessa forma, o material se dividiu em dois lançamentos. O lado comercial saiu primeiro, em abril de 1986, com o nome de Turbo. O lado pesado esperou até maio de 1988 e virou boa parte de Ram It Down, com faixas como a música-título, Hard as Iron, Love You to Death e Monsters of Rock.
Aqui a honestidade exige um ajuste: a gravadora não obrigou ninguém a usar sintetizador. Glenn Tipton chegou às sessões com uma guitarra sintetizada, uma Hamer Phantom ligada a um Roland GR-700, e a banda abraçou o som por conta própria. Quem tocava guitarra naquela época entende o fascínio: o aparelho prometia tirar da guitarra um timbre que não soava como guitarra.
Por outro lado, o veto da Columbia decidiu a ordem em que o público ouviu as duas metades. Consequentemente, o fã recebeu primeiro o Priest de teclado e brilho e concluiu que a banda tinha largado o metal. Tipton admitiu à Guitar World que a banda apanhou por causa de Turbo Lover. A Rolling Stone chamou aquela fase de era divisiva do Priest.
Entre os álbuns que dividiram fãs nos anos 80, Turbo talvez seja o caso mais claro de ordem trocada. Com o disco duplo, o lado pesado chegaria na mesma caixa. Sem ele, o fã julgou a banda pela metade que ouviu primeiro.
Rush e a Mercury: a gravadora pediu um disco e recebeu o 2112
O caso do Rush funciona ao contrário. Caress of Steel saiu em setembro de 1975 com uma suíte de quase 20 minutos, The Fountain of Lamneth, e mal entrou na parada americana, no 148º lugar. Consequentemente, a turnê esvaziou, e a própria banda apelidou aquela estrada de Down the Tubes Tour.
A partir dali, a Mercury reagiu como gravadora costuma reagir. Segundo Geddy Lee, o selo deixou claro que o trio estava decepcionando. Além disso, a pressão pedia material mais acessível, na linha de Working Man e Finding My Way, do primeiro disco. Dessa forma, Lee, Lifeson e Peart sabiam que podiam perder o contrato.
Em vez de obedecer, o trio dobrou a aposta. A banda gravou o 2112 em janeiro de 1976, no Toronto Sound, e ocupou o lado A inteiro com uma suíte de 20 minutos de ficção científica. O disco chegou às lojas em março daquele ano e, nas palavras do próprio Lee, salvou a carreira do grupo.
Ainda assim, Caress of Steel continua sendo a ovelha negra do catálogo para muita gente. Ao mesmo tempo, Peart chegou a dizer que o 2112 não existiria sem ele. É o mesmo catálogo que sustenta a turnê Fifty Something meio século depois.
Aqui a gravadora perdeu a briga, e o fã ganhou o disco que ela não queria.
Psicoacústica do Ira!: o disco que a Warner não sabia como vender
O Brasil tem a sua versão. Em 1988, poucos meses depois de abrir o primeiro Hollywood Rock, o Ira! lançou Psicoacústica pela Warner. O disco misturava hard rock, rap e trechos do filme O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla.
Os samplers eram novidade no rock nacional daquele momento. Ao mesmo tempo, a capa trazia holograma, e as primeiras tiragens vinham com óculos 3D. Nasi contou à Rolling Stone que Sganzerla chegou a propor um videoclipe com cenas inéditas do filme, e que a gravadora deu sinal verde no começo.
Depois, segundo o Metrópoles, a Warner barrou a participação do cineasta por causa do valor que ele pediu. Além disso, a gravadora não sabia como vender um disco que não cabia na prateleira do BRock. Por isso, o resultado ficou em torno de 60 mil cópias, e o disco ganhou fama de trabalho não comercial. Detalhe: a estreia, Mudança de Comportamento, tinha vendido cerca de 50 mil.
Entre os álbuns que dividiram fãs no Brasil, esse tem uma particularidade: o fã também estranhou. A crítica, por outro lado, abraçou o disco, e o tempo fez dele um cult.
Psicoacústica vendeu mais que a estreia e, ainda assim, entrou para a história como o disco problemático. Essa conta não fecha com a régua do fã. Fecha com a régua do departamento comercial.
Nem todo disco polêmico tem gravadora no meio: o Metallica escolheu Bob Rock
Seria fácil encaixar o Black Album na mesma tese. No entanto, os fatos não deixam. Lars Ulrich ouviu Dr. Feelgood, do Mötley Crüe, e quis aquele grave e aquele bumbo no próximo disco do Metallica. A banda procurou Bob Rock por conta própria, a princípio só para mixar.
Rock acabou produzindo, e o disco chegou às lojas em agosto de 1991. Ainda assim, parte dos fãs antigos culpou o produtor pela virada. O próprio Rock, porém, afirma que a banda já tinha decidido abandonar o thrash antes de ele chegar. Inclusive, Ulrich queria groove, e Back in Black, do AC/DC, servia de referência.
Além disso, esse caso importa porque mostra o erro inverso. O fã procurou um culpado de fora, o produtor, quando a decisão interna nasceu na própria banda. A Rolling Stone Brasil lembra que os puristas renegaram o grupo depois do disco, e a raiva se espalhou por Load, Reload e St. Anger.
Por isso, nem todos os álbuns que dividiram fãs cabem na mesma explicação. Separar os dois tipos de caso não enfraquece a tese. Pelo contrário: impede que ela vire desculpa para tudo.
Álbuns que dividiram fãs pedem leitura do contrato antes do veredito
A abertura falou do disco que todo fã nunca perdoou. Vale voltar a ele com outra pergunta: quem assinou embaixo? Às vezes a resposta é a banda, como no caso do Metallica. Em outras, a gravadora processou, vetou, pressionou ou travou o disco, e o fã cobrou a conta de quem estava na capa.
Portanto, a história desses álbuns que dividiram fãs também é uma história de contrato. O mesmo assunto aparece nos processos do Tool, na venda do nome do Pink Floyd e no que Thom Yorke diz da indústria. No entanto, a diferença é que, nos anos 80, o fã não lia a parte jurídica. Ele ouvia o disco, comparava com o anterior e escolhia um culpado. Muitas vezes, escolheu o errado.
Perguntas frequentes sobre álbuns que dividiram fãs
Por que a Geffen processou Neil Young?
A Geffen alegou que Trans e Everybody’s Rockin’ eram discos não representativos da obra dele. Por isso, pediu US$ 3,3 milhões em dezembro de 1983. No entanto, Young contestou com base na liberdade artística do contrato, e o caso terminou com um pedido de desculpas de David Geffen.
O que era o Twin Turbos do Judas Priest?
Era o disco duplo que o Judas Priest planejou em 1985, com uma metade comercial e outra pesada. No entanto, a Columbia recusou o formato. Dessa forma, a metade comercial virou Turbo, em 1986, e parte da pesada entrou em Ram It Down, em 1988.
A Mercury quase dispensou o Rush?
Depois do fracasso de Caress of Steel, a banda temeu perder o contrato, e a Mercury cobrou um som mais acessível. Ainda assim, o trio respondeu com o 2112, que fez o oposto do pedido e virou o primeiro grande sucesso do grupo.
Que álbuns que dividiram fãs no Brasil tiveram a gravadora envolvida?
O Psicoacústica, que o Ira! lançou pela Warner em 1988, é um exemplo bem documentado. Além disso, a gravadora barrou a participação de Rogério Sganzerla num videoclipe e não soube posicionar o disco no mercado.
Bob Rock mudou o som do Metallica?
Em parte, sim, mas por escolha da banda. Inclusive, o Metallica procurou o produtor depois de ouvir Dr. Feelgood, e Rock afirma que o grupo já tinha decidido deixar o thrash. Portanto, o Black Album é um caso de mudança interna, não de imposição da gravadora.






