Nickelback: de Hanna ao Hall da Fama

Em 6 de outubro de 2019, Chad Kroeger subiu ao Palco Mundo do Rock in Rio de camiseta dos Ramones, antes de Imagine Dragons e Muse. Tocou Photograph, Far Away, Hero, Rockstar e How You Remind Me. A plateia, segundo a Rolling Stone Brasil, respondeu com nostalgia. A história do Nickelback inclui essa cena e inclui também a fama de piada que a internet colou na banda.
Quem passou a vida perto de rádio e de palco sabe que tocar em todo lugar cobra um preço. A música que embala o verão vira, uns anos depois, o alvo preferido da zoeira. Por isso, a pergunta que interessa não é se o Nickelback é bom ou ruim. É em que ordem as coisas aconteceram.
Este texto defende uma ideia que incomoda os dois lados: o Nickelback venceu nos números antes de perder na reputação. O escárnio de massa veio depois do auge, não antes. A crítica, ressalvo, nunca comprou a banda. Para provar, o texto segue a trajetória de Hanna, no Canadá, até o Hall da Fama de 2023. Além disso, separa o que as fontes confirmam do que é interpretação.
A história do Nickelback começa numa banda cover de Hanna
Tudo nasce com uma banda cover chamada Village Idiot. Chad e Mike Kroeger, o primo Brandon Kroeger e Ryan Peake a montaram em Hanna, pequena cidade de Alberta. O nome definitivo veio do emprego de Mike numa Starbucks, onde ele dizia aos clientes “here’s your nickel back”. Essa é a versão que a Wikipedia registra.
Aqui já aparece um problema de fontes. A Wikipedia dá 1995 como ano de formação. No entanto, o texto da mesma página fala em início dos anos 1990 para a banda cover. Portanto, trate a data com cuidado, porque dois anos separam as versões e eu não consegui desempatar.
O primeiro produto próprio foi o Hesher, EP de sete faixas de 1996. Um empréstimo de 4 mil dólares canadenses do padrasto de Chad pagou a gravação. Além disso, no mesmo ano saiu o Curb, o primeiro álbum cheio. Em 1999, a banda assinou com a Roadrunner e a EMI. Segundo a mesma fonte, o executivo Ron Burman levou três meses para convencer a gravadora.
Pense no que isso significa. Uma banda de cidade pequena pagou o próprio EP com dinheiro de casa e demorou anos para chegar a um selo. Dessa forma, a história do Nickelback desmonta a ideia de produto montado em laboratório.
Silver Side Up e a aposta que não podia falhar
O disco que decidiu tudo foi o Silver Side Up, de 11 de setembro de 2001. Antes dele, a banda tinha o The State. A Wikipedia coloca esse álbum em 2000, mas outra fonte o data em 1998. Rick Parashar produziu o novo disco. Além disso, ele já tinha trabalhado com Pearl Jam, Alice in Chains e Blind Melon. A banda gravou nos Greenhouse Studios, em Burnaby.
Chad Kroeger chamou o trabalho de disco de “make or break”, além disso, Ryan Peake disse que a gravadora tinha investido muito e que o novo álbum precisava funcionar. Por isso, a escolha do primeiro single pesava.
How You Remind Me nasceu de uma briga de Chad com a então namorada, num apartamento em Vancouver. A fonte muda o tempo de composição. A Wikipedia fala em até uma hora, e a This Is Dig fala em cerca de 15 minutos. Além disso, a banda quase escolheu Never Again para abrir o disco. Kroeger admitiu que talvez o grupo tivesse medo de mostrar o outro lado do Nickelback.
Portanto, esse detalhe da história do Nickelback pesa na discussão sobre rótulos. A faixa que definiu a banda foi, por escolha dela mesma, a mais palatável. Em contrapartida, a crítica não perdoou. A Rolling Stone americana deu duas estrelas de cinco ao álbum, e a Entertainment Weekly deu C, segundo a Wikipedia. Ainda assim, o público respondeu de outro jeito.
Os números da história do Nickelback entre 2001 e 2009
O Silver Side Up estreou em segundo lugar na Billboard 200, atrás de The Blueprint, de Jay-Z. Vendeu cerca de 178 mil cópias na primeira semana. Inclusive, chegou ao primeiro lugar no Canadá e no Reino Unido. Por isso, How You Remind Me liderou a Hot 100 por quatro semanas, a partir de dezembro de 2001. O álbum virou seis vezes platina nos Estados Unidos, segundo a Wikipedia.
Já a conta da década é mais forte. A Billboard, segundo o Globe and Mail, ranqueou o Nickelback como o principal grupo ou dupla dos anos 2000, em sétimo lugar geral. Ainda segundo o jornal, How You Remind Me foi a música de rock número 1 da década. Além disso, ficou em quarto lugar entre todas as músicas do período.
O All the Right Reasons, de 3 de outubro de 2005, chegou ao primeiro lugar da Billboard 200 com 323.350 cópias na primeira semana. Cinco singles do disco entraram no Top 20 da Hot 100, segundo a Loudwire. Em março de 2017, a RIAA o certificou como diamante, com 10 milhões de unidades.
Aqui cabe cuidado. A mesma reportagem registra 7,96 milhões de cópias vendidas. O restante vem da conversão de streaming em unidades. Na minha leitura, o diamante é real, mas não equivale a 10 milhões de discos vendidos. Ainda assim, o número fala por si.
Bateristas, Dark Horse e os Grammys que nunca vieram
A formação nunca foi estática. Brandon Kroeger tocou bateria de 1995 a 1997, Mitch Guindon de 1997 a 1998 e Ryan Vikedal de 1998 a 2005, segundo a Wikipedia. Em 2005 entrou Daniel Adair, ex-3 Doors Down. Quem acompanhou a saída de Iggor Cavalera do Sepultura sabe que troca de baterista mexe com a identidade de uma banda. No entanto, o núcleo de Chad, Mike e Peake segurou o som.
O Dark Horse, de 18 de novembro de 2008, trouxe o produtor Mutt Lange. A Wikipedia registra recepção de mista a negativa. Ainda assim, o disco ficou platina em três semanas e passou de 3 milhões de cópias nos Estados Unidos até abril de 2010. Além disso, em 2009, a banda levou três Junos: Fan Choice, Grupo do Ano e Álbum do Ano.
Já os Grammys contam outra parte da história do Nickelback. A Wikipedia lista seis indicações entre 2003 e 2010, incluindo Gravação do Ano para How You Remind Me, e nenhuma vitória. Em contrapartida, a banda soma 12 Junos, segundo o Blabbermouth. Por isso, a indústria americana ignorou o grupo, e o Canadá o premiou.
O ódio na história do Nickelback chegou depois do auge
Uma data merece atenção primeiro. Em novembro de 2011, torcedores do Detroit Lions criaram uma petição contra o Nickelback no show do intervalo do jogo de Ação de Graças, em 24 de novembro. A Loudwire registrou cerca de 9.500 assinaturas, para uma meta de 10 mil, em 3 de novembro. Outras reportagens, sem data exata, falam em 6.500 e em mais de 21 mil. Dessa forma, a petição mostra a velocidade da onda.
Por outro lado, uma newsletter de dados, a Stat Significant, aponta que a busca por “Nickelback hate” disparou em novembro de 2011. Portanto, é um sinal, não uma prova. Além disso, a newsletter não passa por revisão acadêmica e não mede ódio diretamente.
Em setembro de 2013, Mike Kroeger disse à Rolling Stone Brasil: “Eu não entendo muito bem também.” Ele tentou uma teoria. Segundo ele, todas as bandas de rock ficam grandes demais para as pessoas depois de um tempo, e todo mundo passa a odiar. Além disso, para ele, a internet amplificou o fenômeno.
Inclusive, o Brasil viu isso de perto. A banda tocou no Rock in Rio de 2013, ao lado de Bon Jovi, e voltou em 2019. Na volta, a reportagem lembra que críticos chamam o grupo de “rock de balada” e de música de “festas infantis”. Por outro lado, os riffs mais pesados do set e a camiseta dos Ramones soaram como recado de que a banda recusa o rótulo.
O Nickelback venceu nos números e perdeu a reputação
Voltamos ao Palco Mundo e à história do Nickelback. A ordem dos fatos, pelo que consegui documentar, segue abaixo. Rádio e vendas vieram em 2001, a Billboard coroou a banda em 2009, a petição apareceu em 2011 e o desabafo de Mike Kroeger, em 2013. Portanto, o escárnio de massa não precedeu o auge. Ele o seguiu.
A crítica, porém, já torcia o nariz em 2001, e é isso que impede uma tese limpa. O que mudou foi a escala. Por isso, a internet transformou o desdém de resenha em meme. Ainda assim, em 13 de março de 2023, o Nickelback entrou no Canadian Music Hall of Fame. Chad Kroeger disse, segundo o Blabbermouth, que se sentia sem merecer tamanha honra.
Fica o argumento que o título prometeu. A história do Nickelback mostra uma banda que ganhou onde se mede, no rádio, na venda e na parada, e perdeu onde não se mede. Portanto, quem ainda a trata como acidente de mercado esqueceu de olhar a data de cada fato.
Perguntas frequentes sobre a história do Nickelback
A Wikipedia dá 1995 em Hanna, Alberta. No entanto, o texto da página fala em início dos anos 1990 para a banda cover que originou o grupo. Portanto, as fontes que consultei não fecham a data exata.
O All the Right Reasons, de 2005. A RIAA o certificou como diamante em 2017. No entanto, a Loudwire registra 7,96 milhões de cópias vendidas, e o restante vem de streaming. Portanto, o título é real, mas o número pede contexto.
Não. A Wikipedia lista seis indicações, de 2003 a 2010, e nenhuma vitória. Em contrapartida, a banda tem 12 Junos, segundo o Blabbermouth.
Sim. A banda tocou no Rock in Rio de 2013, com Bon Jovi, e em 2019, no Palco Mundo. Além disso, a Noise11 registrou uma data no Morumbi, em São Paulo, em 21 de setembro de 2013.
Não há resposta única. Mike Kroeger disse em 2013 que bandas de rock grandes demais acabam odiadas e que a internet amplificou isso. Por outro lado, a crítica já dava notas baixas ao Silver Side Up em 2001, ou seja, o desdém não nasceu na internet.






