Hiato do System of a Down: a disputa já existia em 2005

Quem passou pelos ensaios de banda nos anos 80 e 90 sabe onde um grupo racha de verdade. Não é no palco. É na divisão das músicas e na divisão do dinheiro. Por isso, quando reli o que músicos e jornalistas disseram sobre o hiato do System of a Down, uma data me chamou a atenção: 2005, e não 2006.
Boa parte do que circula em português trata o impasse como briga do presente, com Serj Tankian de um lado, Daron Malakian do outro e nenhum disco novo desde Mezmerize e Hypnotize. No entanto, as falas dos próprios músicos apontam para trás. Ao mesmo tempo, a tensão já aparecia enquanto eles gravavam esses dois álbuns.
Este texto defende que o hiato do System of a Down, em 2006, veio de uma disputa sobre autoria e controle que já estava aberta durante a gravação de Mezmerize e Hypnotize. Por outro lado, há um limite que precisa ficar claro desde já. Tudo o que se sabe vem de testemunho dos próprios envolvidos, e as versões se contradizem em pontos centrais. Por isso, cada afirmação aparece aqui com o nome de quem a fez.
Hiato do System of a Down: Serj diz que já queria sair antes de 2005
Em 13 de julho de 2018, Serj Tankian publicou uma longa declaração sobre a falta de um disco novo. Ele se disse pessoalmente responsável pelo hiato do System of a Down, que a banda anunciou em 2006. Foi um ano de rupturas no metal: no mesmo 2006, Iggor Cavalera deixou o Sepultura. Segundo o texto, Serj se afastou do grupo para seguir uma carreira solo. A pergunta é antiga no rock: o que a banda acrescenta a quem sai sozinho? Inclusive, escrevi sobre isso ao analisar a carreira solo de Freddie.
O trecho que interessa a este artigo vem depois. Serj afirma que queria deixar a banda antes de Mezmerize e Hypnotize. Por isso, segundo ele, não se sente pessoalmente envolvido com esses dois álbuns.
Serj também conta que tentou reaproximar o grupo cerca de dois anos antes, com uma proposta mais igualitária. Além disso, a proposta previa liberdade criativa para todos, divisão igual de lucros e mais autoridade de cada um sobre as próprias criações. Ele encerra a declaração de 2018 com um pedido de desculpas por não ter entregado um novo álbum do System. Dessa forma, o texto funciona como confissão e como acusação ao mesmo tempo, porque assume a responsabilidade pelo hiato e aponta o controle de Daron.
Quem escreve assim não fala de uma briga de ontem. Fala de uma conta que seguiu aberta por mais de uma década. Ainda assim, esse é só o relato dele.
Dolmayan e Daron contam o hiato do System of a Down de outro jeito
John Dolmayan, o baterista, sustenta que Serj não queria gravar Mezmerize e Hypnotize. Em entrevista publicada pela Rolling Stone Brasil, ele diz que a banda precisou implorar para o vocalista fazer os dois discos. Além disso, Dolmayan afirma que, em 2005, Serj já se sentia fora do grupo.
Repare no ponto em que as duas versões se encontram. Serj diz que queria sair. Dolmayan diz que Serj já estava fora. Os dois, portanto, descrevem um vocalista distante em 2005. Ainda assim, discordam sobre a origem dessa distância.
Daron Malakian não usa a palavra implorar nas falas que encontrei. Ele fala em visões criativas diferentes. Em entrevista ao podcast Talk Is Jericho, explicou que o System tem um jeito próprio de fazer disco: ele escreve, e a banda produz junto com Rick Rubin. Serj, segundo ele, quer fazer de outro modo. Além disso, Daron diz que a divergência não é só dele com Serj, porque Shavo Odadjian e Dolmayan também não veem para onde o vocalista quer levar o grupo. A Rolling Stone Brasil registrou o relato de Daron.
Dessa forma, a diferença é sutil e decisiva. Para Dolmayan, o problema era a vontade de Serj. Daron via no método a causa do impasse. Serj, por sua vez, apontava o poder.
Publishing, controle criativo e imprensa: as queixas de Serj sobre 2005
As queixas de Serj sobre 2005 se dividem em três frentes: publishing, que são os direitos de autoria das músicas, controle criativo e acesso à imprensa. Segundo ele, os integrantes eram iguais no começo. Quando Mezmerize e Hypnotize saíram, a situação era o oposto: Daron controlava o processo criativo, ficava com a maior parte do dinheiro de publishing e queria ser o único a falar com a imprensa.
Tudo isso são alegações de Serj, e os outros membros respondem com outras leituras. Nenhum dos músicos divulgou valores ou percentuais, pelo que consta nas fontes que consultei. Por isso, o leitor não tem como conferir a conta. Daron, por outro lado, descreve o próprio papel como parte do método do grupo. Além disso, ele sugeriu, em outra entrevista, que Serj talvez tenha falado sob a pressão de fãs que cobravam um disco.
Em 2024, Serj voltou ao assunto. Ao divulgar o livro de memórias Down With The System, ele respondeu o que seria preciso para a banda gravar de novo: uma abordagem igualitária, com mais equilíbrio na origem da música, na divisão de tudo, publishing incluído, e na visão do grupo. Ao mesmo tempo, ele chama a lista de manifesto, presente no livro, e conta que a apresentou aos colegas sem sucesso.
A queixa de 2018 e a condição de 2024 dizem a mesma coisa em épocas diferentes. Isso não prova que Serj esteja certo. Ainda assim, mostra que a reclamação sobre o hiato do System of a Down não nasceu da briga recente.
Testemunho contra testemunho: o hiato do System of a Down sem juiz
Tudo o que apareceu até aqui é testemunho dos próprios envolvidos. Nas fontes que consultei, não há contrato nem documento público que decida a questão. Por isso, o leitor precisa pesar quem fala e de onde fala.
Dessa forma, as versões se contradizem em pontos centrais. Serj assume a maior parte da culpa, mas também acusa Daron de controle. Em 2013, Shavo Odadjian escreveu no Facebook que a falta de disco novo era culpa de Serj e apagou o post poucas horas depois. A página oficial da banda explicou, na ocasião, que o desabafo dele não refletia a opinião do grupo.
Dolmayan, por outro lado, divide a culpa entre todos. Ele diz que as diferenças pessoais e criativas dos quatro travaram o sucessor de Mezmerize e Hypnotize. Em entrevista à Rolling Stone, chamou o hiato de desastroso e disse que nunca quis a pausa.
Inclusive, a mesma dinâmica reapareceu em 2020. A banda gravou dois singles, “Protect the Land” e “Genocidal Humanoidz”, em outubro e lançou os dois em 6 de novembro. Foram os primeiros do grupo sem Rick Rubin. Segundo registros publicados, outras músicas da mesma reunião ficaram de fora porque Serj não se comprometeu com um álbum. Depois, Serj lançou o EP Elasticity, com cinco músicas que, segundo ele, nasceram para um disco do System. Ele diz que a banda não conseguiu se entender.
Quando todos têm uma versão e ninguém tem um documento, o mais honesto é pôr as versões lado a lado.
O hiato de 2006 nasceu de uma disputa de autoria e controle
A pergunta da abertura continua valendo: onde um grupo racha de verdade? No System of a Down, as falas dos músicos indicam que foi cedo, no momento em que Mezmerize e Hypnotize tomavam forma. Serj diz que já queria sair. Dolmayan diz que a banda implorou. Daron fala em métodos diferentes. Por isso, o hiato do System of a Down parece mais o resultado de uma conta antiga do que de uma briga nova.
Daron disse em julho de 2025, ao Talk Is Jericho, que o que lamenta é a evolução interrompida pela pausa. Além disso, ele acredita que a banda tinha mais caminho para andar. Ainda assim, o grupo lotou estádios na América do Sul sem lançar um disco novo.
Outras bandas grandes viveram anos de silêncio por motivos que não cabem em uma frase. O Tool passou 13 anos sem disco. O Pearl Jam decidiu o tamanho que queria ter. Por outro lado, o System, até onde as falas permitem ver, nunca resolveu quem decide. Enquanto os quatro não contarem a mesma história, ao leitor resta comparar as versões e julgar com cuidado.
Perguntas frequentes sobre o hiato do System of a Down
O hiato começou em 2006, depois dos dois discos de 2005. Mezmerize saiu em maio e Hypnotize, em novembro. No entanto, a banda só anunciou a volta em 29 de novembro de 2010, e os shows recomeçaram em 2011.
A resposta depende de quem fala. Por isso, as explicações divergem: Serj fala em igualdade na autoria e no controle, e Daron fala em jeitos diferentes de fazer disco. Além disso, Dolmayan culpa todos os integrantes.
Sim, em julho de 2018 ele assumiu a maior parte da responsabilidade. No entanto, também acusou Daron de controlar o processo criativo. Dessa forma, a admissão de Serj não encerra a discussão.
Gravou dois singles, “Protect the Land” e “Genocidal Humanoidz”, lançados em 6 de novembro de 2020. Além disso, com as doações dos fãs, a campanha passou de 600 mil dólares para ajuda humanitária na Armênia. Por outro lado, nenhum álbum completo saiu.
Em parte. Serj e Dolmayan concordam que o vocalista já estava distante, mas divergem sobre o motivo. Por isso, o contraste entre “queria sair” e “foi preciso implorar” continua sem árbitro.






