Banda Tool: processos, recusas e 13 anos sem disco

Durante 13 anos, quem gostava de rock pesado repetiu a mesma pergunta: cadê o disco novo da banda Tool? A dúvida virou piada entre fãs, meme de fórum e pauta obrigatória em qualquer entrevista da banda. No entanto, a história do Tool responde a essa pergunta melhor do que qualquer piada. A resposta passa por tribunal, por contrato e por uma teimosia que poucas bandas daquele tamanho sustentaram por tanto tempo.
Passei os anos 80 e 90 entre palco e estúdio com uma guitarra pendurada, e depois atrás de um microfone de rádio. Nesse caminho, aprendi cedo que o artista quase nunca manda no próprio trabalho. A gravadora decide o prazo, o empresário decide a turnê, e a música chega ao público do jeito que o mercado quer. O Tool resolveu jogar outro jogo. Por isso, cada vitória da banda veio com uma conta pendurada.
Este texto defende uma tese direta: a banda Tool controlou gravadora, catálogo, tempo e imagem como quase ninguém no rock dos anos 90, e esse controle cobrou juros. Os 13 anos entre 10,000 Days e Fear Inoculum não nasceram só do perfeccionismo. Pelo contrário, eles carregam processos, uma seguradora hostil, um catálogo fora do digital e quatro músicos que se recusaram a entregar qualquer coisa pela metade.
A história do Tool começa com uma data trocada
Quase toda biografia do Tool em português repete o mesmo roteiro: Maynard James Keenan conhece Adam Jones em 1990, e a banda nasce ali. Os registros em inglês contam outra coisa. Keenan estudou artes visuais na Kendall College of Art and Design, em Michigan, e se mudou para Los Angeles em 1988. Um amigo em comum o apresentou a Jones em 1989. Jones trabalhava com efeitos especiais e cenografia em Hollywood e ficou impressionado com uma fita da banda anterior de Keenan. A partir dali, insistiu até convencer o amigo a montar um grupo.
Danny Carey morava no andar de cima de Keenan e chegou até Jones por indicação de Tom Morello, colega de escola do guitarrista. Paul D’Amour completou a formação no baixo, também pelas mãos de um amigo. Portanto, o encontro aconteceu em 1989, e a banda tomou forma em 1990. A diferença parece detalhe. Ainda assim, ela revela um problema: boa parte do conteúdo brasileiro sobre o grupo copia a mesma base antiga há anos, sem revisão.
O Tool assinou com a Zoo Entertainment em 1991, lançou o EP Opiate em 1992 e chegou a Undertow em 1993. Em 1995, Justin Chancellor assumiu o baixo no lugar de D’Amour, na única troca de formação da história do Tool. Desde o começo, além disso, os quatro já exibiam a marca que definiria tudo depois: controle criativo sobre o próprio trabalho, com Jones dirigindo a maioria dos clipes. Essa postura daria fama ao Tool e, ao mesmo tempo, colocaria a banda em rota de colisão com a indústria.
Volcano contra o Tool: a briga que travou a banda depois de Ænima
Ænima saiu em 1996 e transformou o Tool em fenômeno. No entanto, o sucesso trouxe o primeiro choque sério da história do Tool com o mercado. A Zoo deixou de existir, e a Volcano Entertainment herdou o contrato. No fim de 1997, a nova dona acusou a banda de violar o acordo ao ouvir propostas de outros selos. O Tool respondeu com outra tese: a gravadora não tinha exercido a opção de renovação, e por isso a banda estaria livre.
A disputa durou mais de um ano. Em dezembro de 1998, as partes fecharam um acordo fora dos tribunais, com um contrato de joint venture para três discos. Na prática, a banda deixou de ser apenas contratada e ganhou participação no próprio negócio. Além disso, a confusão não terminou ali. Em 2000, o Tool demitiu o empresário Ted Gardner, que processou a banda por comissão sobre esse novo acordo.
Enquanto isso, Keenan gravou o primeiro disco do A Perfect Circle, e os rumores de fim do Tool cresceram. A banda respondeu com o box Salival, em 2000, e só entregou Lateralus em 2001, quase cinco anos depois de Ænima. Outras bandas da mesma geração também decidiram o próprio tamanho, como fez o Pearl Jam. Poucas, porém, foram tão longe no papel assinado. Aqui nasce o padrão que se repetiria: o Tool trocou velocidade por autonomia contratual, e o público pagou a diferença em espera.
O processo do Tool que virou briga com a própria seguradora
Depois de 10,000 Days, em 2006, o Tool parecia pronto para o ritmo de sempre. Então, em 2007, começou o capítulo mais caro da história do Tool. Cam de Leon, artista amigo de Jones e autor de trabalhos visuais da era Ænima, cobrou crédito e compensação por artes que o grupo usava. Até aqui, um caso comum de direito autoral.
O problema veio na sequência. A banda acionou a seguradora que contratou justamente para cobrir esse tipo de disputa. Em vez de defender o Tool, a empresa processou a banda por questões técnicas do caso. O Tool contra-atacou com outra ação, e a briga virou um labirinto jurídico. Em 2014, Jones contou à Rolling Stone que a defesa já custava milhões de dólares. Inclusive, disse que a banda teria se saído melhor sem a apólice, enfrentando só o processo original.
Em março de 2015, o caso finalmente virou. No primeiro dia do julgamento, uma mudança de foro levou a disputa para um tribunal no norte de Los Angeles, com um juiz novo. A banda venceu. Ainda assim, Jones chamou o processo de pior coisa que já aconteceu ao grupo. Sem ele, segundo o guitarrista, o Tool teria lançado disco e feito mais turnês muito antes, como a Rolling Stone registrou na época. No mesmo período, um integrante não identificado enfrentou uma doença grave. Portanto, boa parte do hiato de 13 anos aconteceu nos tribunais, não no estúdio.
Tool no streaming só em 2019: a recusa que ninguém assumiu
Enquanto o rock inteiro migrava para o iTunes e depois para o Spotify, a banda Tool simplesmente não estava lá. Não havia download legal na loja da Apple nem na Amazon MP3. Quem queria a discografia em arquivo digital precisava comprar o CD e converter em casa. Como alguém que cresceu entre vinil e fita, confesso que achava a postura charmosa. Ao mesmo tempo, ela afastou a banda de uma geração inteira de ouvintes.
A mudança veio em 2 de agosto de 2019. Keenan antecipou a notícia no podcast de Joe Rogan, e Opiate, Undertow, Ænima, Lateralus e 10,000 Days chegaram de uma vez a todos os serviços digitais. Em seguida, os quatro álbuns entraram juntos no Top 20 da Billboard. A demanda reprimida existia, e o mercado só confirmou o que os fãs já sabiam.
Aqui entra a ressalva que quase nenhum texto brasileiro sobre a história do Tool faz. Em janeiro de 2019, Keenan respondeu a um fã que reclamava da ausência no streaming dizendo que ele cobrava o Tool errado. Ou seja, o vocalista negou que a decisão fosse dele. Parte da imprensa americana atribuiu a recusa ao digital à baixa remuneração dos serviços, um debate parecido com o que Thom Yorke levantou sobre a indústria. No entanto, não encontrei declaração da banda que diga quem bateu o martelo. Por isso, trato a recusa como posição do grupo e de seus negócios, não como capricho de um integrante. E vale lembrar que o que chega ao Spotify nem sempre corresponde ao que a banda gravou.
Fear Inoculum e o saldo de 13 anos sem disco
Fear Inoculum chegou em 30 de agosto de 2019 e estreou no topo da Billboard 200. A faixa-título, com mais de dez minutos, virou a música mais longa a entrar na Hot 100 até então. Na versão física, o álbum soma pouco mais de 79 minutos, o disco mais longo da história do Tool e quase o limite de um CD.
Existe, porém, um mito a desmontar. A banda não passou 13 anos compondo. Danny Carey contou à Kerrang! que o grupo gastou uns cinco anos sólidos no disco, como em todos os outros trabalhos do Tool. O restante do tempo se dividiu entre processo, doença, acidentes e projetos paralelos. Carey, inclusive, quebrou costelas num acidente de moto nesse período. Keenan, por sua vez, admitiu que o medo de o disco não ficar à altura do passado prendeu a banda num ciclo de autocrítica. Na mesma época, Carey disse à Revolver que acha estranho a música do Tool fazer tanto sucesso.
Em março de 2025, o Tool tocou pela primeira vez na América do Sul, em festivais no Chile, na Argentina, na Colômbia e no Brasil. No Lollapalooza de São Paulo, a banda chamou Jéssica Di Falchi, ex-guitarrista do Crypta, para dividir Jambi. Trinta e cinco anos depois da formação, o público brasileiro finalmente viu o grupo ao vivo. Para o fã daqui, a espera por um disco foi curta perto da espera por um show.
O preço do controle na história do Tool
Volto à pergunta do começo: cadê o disco novo? Para a maioria das bandas, a resposta envolveria crise criativa ou briga interna. Já na história do Tool, a resposta envolve contrato renegociado, seguradora do lado errado do tribunal e um catálogo fora do digital por quase duas décadas. A banda ganhou o que quase nenhum artista conquista: a palavra final sobre o próprio trabalho.
Por outro lado, essa palavra final custou dinheiro, tempo e paciência. Jones admitiu os milhões gastos, Keenan admitiu o medo, e Carey admitiu que o trabalho de fato durou menos do que a lenda diz. Como músico, entendo a escolha. Como ouvinte que esperou, entendo a irritação. Dessa forma, o Tool prova que independência no rock existe, mas nunca sai de graça.
Perguntas frequentes sobre a história do Tool
O Tool tomou forma em Los Angeles, em 1990. No entanto, Maynard James Keenan e Adam Jones se conheceram em 1989, por meio de um amigo em comum. Por isso, biografias que datam o encontro em 1990 misturam as duas datas.
Vários fatores se somaram entre 2006 e 2019. Além do processo sobre crédito de arte e da briga com a seguradora, houve doença grave de um integrante, acidentes e projetos paralelos. Ainda assim, Danny Carey diz que o trabalho efetivo no disco durou cerca de cinco anos.
Cam de Leon, artista amigo de Adam Jones, cobrou crédito por artes que a banda usava. Em seguida, a própria seguradora do Tool processou o grupo, que respondeu com outra ação. Dessa forma, a disputa só terminou em 2015, com vitória da banda.
O catálogo chegou aos serviços digitais em 2 de agosto de 2019. Até então, a banda não vendia nem download legal. Inclusive, a novidade saiu menos de um mês antes da chegada de Fear Inoculum.
Sim, a estreia aconteceu no Lollapalooza Brasil, em São Paulo, em março de 2025. Além disso, aquela turnê marcou a primeira passagem da banda pela América do Sul. No show, Jéssica Di Falchi dividiu Jambi com o grupo.






