Who’s Next faixa a faixa: por que o disco ainda soa moderno

Who’s Next faixa a faixa: por que o disco ainda soa moderno
Capa clássica do álbum Who's Next, da banda The Who, em uma paisagem desértica.

Coloque Baba O’Riley para tocar sem avisar ninguém. Nos primeiros segundos, antes da bateria de Keith Moon, aquele pulso de teclado não denuncia o ano. Poderia ser 1971, poderia ser um disco de synthpop de 1983, poderia ser uma produção eletrônica de ontem. Por isso vale fazer o Who’s Next faixa a faixa com outra pergunta na cabeça: não o que o disco representa, mas como a banda o montou.

Quem passou a vida entre palco, estúdio e microfone de rádio aprende a desconfiar da palavra “pioneiro”. Ela explica pouco. No caso do The Who, ela esconde o essencial. O som que envelheceu tão bem não saiu de um arsenal de sintetizadores. Saiu de um órgão de sala, de um filtro usado com inteligência e de um produtor que colocava pouquíssimos microfones na bateria mais barulhenta da Inglaterra.

Este texto defende uma tese simples e verificável. A modernidade do disco vem de três decisões técnicas documentadas: o Marimba Repeat de um órgão Lowrey, o EMS VCS3 trabalhando como filtro e a captação enxuta de Glyn Johns. Portanto, ao percorrer o Who’s Next faixa a faixa, o que interessa é a máquina por trás de cada decisão, e não a lenda em volta dela.

Who’s Next faixa a faixa começa num órgão de sala

O riff de Baba O’Riley não nasceu num sintetizador. Townshend tocou a figura num órgão doméstico, um Lowrey Berkshire Deluxe TBO-1, modelo feito para a sala de estar de família, não para palco de rock. O segredo estava num botão de fábrica chamado Marimba Repeat.

Brian Kehew explicou o recurso à revista Mix. Quando você segura as teclas, o circuito fica repetindo e articulando as notas em pequenas figuras. Além disso, o som passava por um alto-falante rotativo do tipo Leslie. Glyn Johns resumiu a descoberta assim: Townshend mexeu no aparelho, tropeçou na ideia de criar um ritmo com ele e, a partir dali, ficou esperto.

A história tem um detalhe curioso. A ideia original era traduzir em som os sinais vitais de Meher Baba, o guru de Townshend, por meio de um sintetizador. No entanto, não funcionou. O órgão entrou como plano B, e o plano B virou a assinatura do disco. O título, inclusive, junta Meher Baba e o minimalista Terry Riley, cuja música de repetição Townshend admirava.

A faixa partiu de uma demo de cerca de nove minutos, que a banda reconstruiu no Olympic Studios, em Londres, em maio de 1971. No fim, o violino de Dave Arbus fecha a música numa espécie de dança folk acelerada.

Para quem estudou eletrotécnica, a graça está justamente aí. Um circuito de repetição pensado para entreter a família virou o motor rítmico de um hino de estádio. Ou seja, o futuro do rock saiu de um móvel de sala.

Won’t Get Fooled Again: o sintetizador que trabalhava como filtro

Aqui o VCS3 da EMS finalmente aparece, mas não como a maioria imagina. Townshend não tocou a base num sintetizador. Em vez disso, ele ligou o mesmo Lowrey no VCS3 e usou a máquina para processar o órgão. O sintetizador dava brilho ao timbre, mexia na afinação entre as notas e, principalmente, acionava um filtro que ligava e desligava o som enquanto ele segurava os acordes.

Dessa forma nasceu o pulso que atravessa os oito minutos e meio da faixa. É um órgão picotado por um filtro, não uma sequência programada. Ainda assim, o efeito no ouvido lembra um sequenciador, algo que o rock só adotaria em massa anos depois.

A gravação teve duas vidas. Primeiro, a banda tentou a música no Record Plant, em Nova York, com Leslie West na guitarra, e não gostou do resultado. Depois, refez tudo na Inglaterra com o estúdio móvel dos Rolling Stones, sob o comando de Glyn Johns.

Segundo relatos da produção, a versão final aproveitou a trilha de teclado da demo caseira de Townshend e a sincronizou com a bateria de Moon. Esse ponto aparece em fontes secundárias. Por isso, trate-o com cautela até a confirmação em depoimento direto de Townshend ou de Johns.

A guitarra, por outro lado, tem ficha bem documentada. A Guitar World registrou a combinação: uma Gretsch 6120 de 1959, um Fender Bandmaster de 1959 e um pedal de volume Edwards, presentes de Joe Walsh. É pouco ganho e muito médio, a mesma lição que vale para quem quer gravar guitarra pesada sem embolar.

No fim, o resultado é uma banda de carne e osso correndo atrás de um relógio elétrico. Essa tensão, afinal, é o que faz a faixa soar atual.

Glyn Johns e a captação que segurou o Who’s Next

Se o órgão dá o pulso, Glyn Johns dá o espaço. No Studio A do Olympic, uma antiga sala de cinema de pé-direito alto, ele montava a banda em linha, como num palco, virada para a técnica. A mesa era um console de 24 canais que Dick Swettenham projetou, e a fita, um 3M M56 de 16 pistas.

Na bateria de Keith Moon, Johns usava três ou quatro microfones. Um AKG D30 ficava no bumbo, e dois Neumann U67 ficavam no alto, ambos equidistantes da caixa. O microfone de caixa existia, porém quase nunca entrava na mixagem. Johns explicou a lógica em uma frase: a técnica serve para captar o que o músico está entregando, e não para fabricar outro som.

Daltrey cantava ao vivo com a banda, num U67, microfone direcional o suficiente para segurar a voz no meio do barulho. Na mixagem, entrava uma câmara de placa EMT e um Revox com velocidade variável para os ecos de fita.

Johns, inclusive, conhecia bem aquela unidade móvel dos Stones, a mesma que o irmão dele, Andy, levou para Headley Grange no Led Zeppelin IV.

Por isso, essa economia muda tudo. Com poucos microfones, a bateria soa como um instrumento só, com ar em volta, e não como peças coladas. Consequentemente, o pulso eletrônico ganha um contraponto humano e aberto. Em contrapartida, uma captação cheia de microfones de contato teria datado o disco na hora.

Uma ressalva honesta: o esquema descrito pela Mix vale para as sessões em geral. Não existe, pelo menos nas fontes que consultei, um mapa de microfones faixa por faixa. Qualquer texto que afirme o contrário está inventando.

As outras sete faixas do Who’s Next, uma a uma

Seguindo o Who’s Next faixa a faixa, Bargain teve pelo menos nove versões gravadas entre abril e junho de 1971. O ARP aparece como solista e também como tapete sob o solo de guitarra.

Love Ain’t for Keeping ganhou violões sobrepostos, e Moon trocou a Premier de sempre por uma Ludwig. Aliás, a versão elétrica gravada em Nova York, com Leslie West, ficou de fora.

My Wife é de John Entwistle, que cantou, tocou baixo e piano e escreveu os metais no lugar do solo de guitarra.

The Song Is Over, que a banda gravou em 11 de maio de 1971, tem Nicky Hopkins ao piano e acordes de sintetizador nos versos. No Lifehouse, ela fechava a história.

Getting in Tune, de 7 de junho, também traz Hopkins, mas não usa sintetizador nenhum. Portanto, prova que o disco não depende da máquina.

Em Going Mobile, Townshend canta sem Daltrey e passa a guitarra pelo seguidor de envelope do ARP, que ele descreveu como um wah-wah com fuzz.

Behind Blue Eyes tinha uma versão de 18 de março no Record Plant, com Al Kooper no Hammond. A do disco saiu do Olympic e dá voz ao vilão Jumbo do Lifehouse.

Nessas sete, não há registro técnico além disso. Quem precisar de mais vai encontrar suposição, não documento.

Por que o Who’s Next faixa a faixa ainda soa moderno

Junte as peças do Who’s Next faixa a faixa e o padrão aparece. Onde há máquina, ela faz um trabalho mecânico e repetitivo: o Marimba Repeat em Baba O’Riley, o filtro do VCS3 em Won’t Get Fooled Again, o seguidor de envelope em Going Mobile. Ao mesmo tempo, tudo em volta é gente tocando junto, numa sala, com poucos microfones.

Esse contraste é a fórmula que a música pop usou nas décadas seguintes. Um pulso que não varia e uma performance que varia o tempo todo. Consequentemente, o ouvido de hoje reconhece a combinação porque cresceu com ela.

Por isso a busca pelo Who’s Next faixa a faixa costuma terminar em adjetivo, e não em explicação. Butch Vig, produtor de Nevermind, contou à Rolling Stone que não conseguia entender como Townshend usava aqueles teclados. Ele também passava horas tocando bateria no ar, tentando decifrar Moon. Repare: as duas coisas o fisgaram ao mesmo tempo.

Um disco que dependesse do timbre do sintetizador teria envelhecido com o sintetizador. Este aqui dependia da relação entre o pulso e a banda, e essa relação não tem data. Mesmo com as mixagens em Atmos de Steven Wilson, lançadas em 2023, vale voltar ao estéreo original. Afinal, todo remix muda um disco, e o estéreo guarda a decisão como a banda a tomou.

O sintetizador nunca foi o protagonista do Who’s Next

A abertura sugeria um teste cego com Baba O’Riley. A resposta ao teste está num botão de fábrica de um órgão de família. Eis a ironia: o disco que o rock lembra como a estreia do sintetizador usa a máquina quase sempre como ferramenta de repetição, e quase nunca como estrela.

O The Who entrou no Hall da Fama em 1990 pela força de palco. Contudo, Who’s Next mostra outra força, mais silenciosa: saber o que deixar de fora. Ficou de fora a ópera Lifehouse, ficou de fora a sessão de Nova York, e o disco ficou melhor por isso.

Refazer o Who’s Next faixa a faixa deixa uma lição para qualquer um que já gravou alguma coisa. O moderno não mora no equipamento mais novo. Mora na decisão de usar um equipamento velho de um jeito que ninguém tinha pensado.

Perguntas frequentes sobre Who’s Next faixa a faixa

Baba O’Riley usa sintetizador?

Não no riff principal. A figura vem de um órgão Lowrey Berkshire Deluxe no modo Marimba Repeat. Além disso, o som passou por um alto-falante rotativo, o que reforça o movimento.

Qual sintetizador aparece em Won’t Get Fooled Again?

O EMS VCS3, porém como processador. Townshend passou o órgão Lowrey pelo filtro da máquina, que ligava e desligava o som. Dessa forma surgiu o pulso da faixa.

Quem produziu o disco?

A banda assinou a produção com Glyn Johns como produtor associado e engenheiro. Kit Lambert, por outro lado, teve participação mínima. Johns também convenceu o grupo a lançar um disco simples, em vez da ópera Lifehouse.

O Who’s Next faixa a faixa vem todo do Lifehouse?

Quase todo. Oito das nove faixas saíram do projeto abandonado de Townshend. A exceção é My Wife, de John Entwistle, portanto fora da narrativa.

Onde a banda gravou o disco?

Principalmente no Olympic Studios, em Londres, entre abril e junho de 1971. Antes disso, houve sessões no Record Plant, em Nova York, que a banda descartou. Inclusive, parte do trabalho usou o estúdio móvel dos Rolling Stones.

Paulo Stelzer

Guitarrista das bandas Heineken e Domini nos anos 80 e 90, ex-apresentador do "Rock da Tarde" na Rádio Mania 87,9 FM e técnico em Eletrotécnica. Paulo Stelzer criou o Musicante para falar de rock e produção musical com a autoridade de quem viveu o gênero de dentro, nos palcos, nos estúdios e nos microfones.

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